Por Carmo Rodeia

Os meus pais foram pessoas felizes. Os 17 anos que os separavam eram como que a chancela de um amor quase perfeito. Minha mãe casou com 18 anos, num dia 18 de março. Costumava dizer que o meu pai a tinha marcado à nascença e que tinha esperado que ela chegasse à idade adulta. Não chegaram a completar as bodas de prata. Um cancro devastador, que o consumiu em seis meses, haveria de ditar uma separação que a minha mãe dizia que era só física e por uns tempos.

A felicidade daqueles 21 anos, três filhos depois, e uma vida inteira de família, feita de cumplicidades, ditariam que ela nunca mais reencontrasse o amor. Pelo menos aquele amor que a fizesse esquecer o  seu Joaquim ou  “marido” como tratava sempre o meu pai, não fosse alguém pensar que a diferença de idades, que nunca se notou muito, lhe atribuísse outro parentesco.

“Ninguém é suficientemente bom para se sentar à mesa com os meus filhos e tomar o lugar do pai deles” dizia teimosamente a Maria do Carmo como aquele casal que é descrito por Simone de Beauvoir no livro “A Velhice”, ao qual roubo o título deste Entrelinhas: “casal feliz que se reconhece no amor desafia o universo e o tempo; basta-se, realiza o absoluto”. Era pequena, pequena demais talvez,  quando o meu pai faleceu mas lembro-me bem da harmonia que havia entre eles, apesar da diferença de idades.

Do que oiço, ou ouvi contar do meu pai pela voz da sua amada, intuo que ambos pensariam o mesmo embora desejassem um ao outro, um futuro diferente. A mãe costumava contar que o pai antes de morrer lhe pediu três coisas: que não usasse duas alianças; que não se vestisse de luto e que refizesse a sua vida vida. Ela seguiu todos os conselhos, menos este último. A mãe foi uma verdadeira mulher coragem. Trabalhou, lutou, batalhou… Não passámos propriamente por necessidades mas foi uma vida sofrida, diferente da que tínhamos tido até então antes do pai partir e, certamente, uma vida muito diferente da que a minha mãe teria desejado.

Era uma mulher bonita, educada, instruída, sempre de sorriso escancarado. Adorava viajar, passear, correr mundo. Nunca foi dada a depressões a não ser quando lhe disse que ia viver para os Açores, “no outro lado do Atlântico”. Lembro-me que ficou desolada. Não sei se por me ver partir ou por não estar perto dos netos. Na altura já tinha quatro netos, filhos dos meus irmãos. Mas não eram suficientes. Passava largas temporadas em Ponta Delgada, onde reencontrou amigas de infância e da faculdade. A avó Cácá como ainda hoje é conhecida entre os netos, os de sangue e todos os outros que vieram por acréscimo, tem 86 anos e sofre de Alzheimer, diagnosticado há 3. É uma sombra de si própria.

Há muito que não a vejo sorrir. Na maior parte do tempo tem um olhar vazio e vítreo, sempre com os olhos marejados de lágrimas, vermelhos cor do sangue que faz doer. São mais as ausências e as falhas de memória, tantas e tão frequentes, que por vezes achamos que o delírio a transporta para um mundo absolutamente non sense, ferido de medo e de angústias várias. Sem memória imediata e já quase sem memória do passado, passa os dias numa espécie de limbo adormecido e autómato.

Hoje foi um dia difícil para todos. A mãe saíu de casa porque já não tinha condições para aí ser cuidada. Quando chegámos à nova residência, como que em jeito de despedida disfarçada, como a palavra residência esconde a amargura de um lar, e uma lucidez arrebatadora, disse-me a mim e ao João, um dos meus irmãos: não me deixem aqui. Passadas umas horas com o coração ainda mais apertado procurei saber como estava. A resposta voltou a ser  um murro no estômago: nunca pensei que os meus filhos me pusessem aqui.

Não se deveria envelhecer para sofrer e morrer. Julgo que foi o cardeal Tolentino que proferiu esta ideia num excelente artigo no Expresso a propósito dos idosos que morrem com covid, sublinhando o modo extraordinário e preciso como o livro do Génesis descreve a caminhada do patriarca Abraão. “Abraão expirou… velho e saciado de dias” (Gen 25:8).

Sim, não se envelhece para morrer e muito menos sofrer. A velhice deveria ser um laboratório de vida presente e não só passada, uma escola onde se aprofunda o significado da esperança e do amor. Mas, se vivermos durante muito tempo, descobrimos que todas as vitórias, um dia, se transformam em derrotas. Agora sou eu que estou vazia… e derrotada, com ela.