Por João Silva

Diz-se que existe uma forma clara de identificar um Açoreano, a sua devoção ao Divino Espírito Santo e o seu culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Na verdade, a casa comum Açoreana há muito que deixou de ser estas nove ilhas de basalto perdidas no atlântico norte. O povo Açoreano, a nossa gente, transporta no seu íntimo, no seu ADN, laivos do quinto império, o reino interior, mas simultaneamente universal, de que nos falava Cristo. Em cada lar Açoreano, a coroa do Espírito Santo e um registo do Santo Cristo.
Perdidos nas minhas memórias de infância, como se de um berlinde multicolor se tratasse, vejo uma estampa de Senhor Santo Cristo nas paredes da casa do meu avô materno. Em paralelo, ouço como se fossem romeiros, os acordes do Seu hino, na melancólica voz do meu avô paterno. Afinal, pergunta a criança que fui, ao homem que hoje sou, quem é aquele Jesus de manto escarlate e resplendor dourado?
Todos os anos, pelas festas do Senhor, a calçada do Campo de São Francisco é rasgada pelo sangue e lágrimas dos fiéis, levantando-se um clamor silencioso: Senhor tem misericórdia de nós! Paira sobre todos uma névoa de sofrimentos ancestrais, terramotos, cataclismos, a dor coletiva do nosso povo. Ocasionalmente, cruzamo-nos com uma vida desfeita em farelos e cera, ancorada apenas pela gravidade de uma tremenda fé. E, tal como no Sermão da Montanha, a multidão aguarda sempre em expectativa a presença do Senhor, a saída da Sua Imagem. Brotam lágrimas nos olhos cansados, gratos pela bênção ou graça recebida. O ar fica rarefeito e cai um silêncio abafado como se fosse uma chuvinha miudinha. Depois, o anúncio da Sua saída no barulho dos foguetes, o som da música e o choque do primeiro deslumbre do Seu andor. Ecce Homo, eis o Homem, eis o Senhor! Caímos de joelhos, choramos lágrimas sentidas e eis que na nossa consciência coletiva, vivenciamos a primeira estação da Via Crucis. Prostramo-nos perante o Sagrado, suplicando-Lhe, dobrados sobre a nossa pequenez.
Pela Sua graça, acompanho anualmente o Senhor na procissão pelas ruas de Ponta Delgada, em simples oração. Recentemente vi um menino de pequena idade que apontava para o Senhor e perguntava qualquer coisa ao pai, e rapidamente fui transportado para os umbros do meu falecido pai, miúdo curioso que era na altura, na esperança de ver o Senhor passar. E lembro aquele primeiro olhar feito beijo e abraço, doce e piedoso.
Findo o deslumbre da festa, voltamos ao dia a dia das nossas vidas profanas, restando-nos aquela saudade que pesa no coração. Mas o Senhor não Se fica na Esperança, pois Ele é Clemente e Compassivo e deixa-Se transportar por nós. Mas como é que isto é possível? Ora, somos lembrados precisamente na quinta estação da Via-Sacra que não só devemos carregar a nossa cruz neste vale de lágrimas, mas também podemos ajudar O Senhor a transportar a Sua. Que mistério admirável é este!