Fé que transforma e constrói a paz: Reitor convida fiéis para um encontro que muda vidas

As Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres arrancam esta sexta-feira em Ponta Delgada com um forte apelo ao discernimento, à paz e ao compromisso cristão. O reitor defende que estas celebrações devem conduzir a “um encontro verdadeiro com Deus que fortaleça a fé e comprometa cada um na construção de um mundo melhor”, enquanto o provedor da Irmandade sublinha a importância de uma mensagem centrada na paz num contexto mundial incerto

Foto: Igreja Açores/CR

A abertura das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, esta sexta-feira, marca o início de um dos momentos mais significativos da vivência religiosa açoriana, reunindo milhares de fiéis em Ponta Delgada num ambiente de fé, tradição e reflexão.

“Está praticamente tudo pronto para o arranque”, garantiu o provedor da Irmandade, que este sábado ficará guardiã da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, quando esta for devolvida ao povo de Deus, na designada Procissão da Mudança, adiantando que o primeiro dia ficará marcado pela missa das 11h00, presidida pelo bispo de Angra, na Igreja de São José, destinada especialmente aos doentes, e pela tradicional abertura das iluminações. A expectativa está também nas condições meteorológicas, consideradas determinantes para momentos centrais como a mudança e a procissão.

Mais do que uma manifestação de religiosidade popular, o reitor do Santuário, cónego Manuel Carlos Alves, destaca a necessidade de dar profundidade espiritual a estas celebrações.

“É a partir da nossa vida que temos de perceber as respostas e as luzes que o Evangelho nos dá. Muitas vezes falta-nos esse discernimento”, afirmou, alertando para o risco de uma fé pouco esclarecida e pouco comprometida.

Segundo o responsável, o tríduo preparatório tem sido um convite claro a esse caminho interior, centrado no encontro consigo próprio, com os outros e com Deus. O objetivo é que os fiéis “saiam fortalecidos na fé e mais comprometidos com a transformação do mundo”.

Também o provedor reforça essa dimensão de mudança, embora reconheça os desafios: “Era muito importante que essa transformação existisse, mas não sei se será fácil. O importante é apelar à paz, porque vivemos um momento muito incerto a nível mundial”.

A mensagem central das festas, sublinha ainda o Reitor, é clara: “É uma mensagem de paz, porque é o que a gente necessita”, deixando ainda um apelo para que o Senhor Santo Cristo “ilumine e conceda paz” aos fiéis.

Também a mensagem da Igreja universal surge como pano de fundo destas celebrações. O cónego Manuel Carlos Alves lembra o apelo à “alegria do Evangelho”, defendendo que a vivência cristã deve ser entendida como “um encontro libertador com o amor misericordioso de Deus” e não como um peso.

Num tempo marcado por desafios sociais e humanos, o reitor do Santuário deixa ainda um apelo à responsabilidade individual e coletiva na construção da paz e na defesa da dignidade humana, lembrando que “cada pessoa é essencial nesse caminho”.

Numa entrevista ao sítio Igreja Açores que pode ouvir na integra no próximo domingo, no programa de Rádio Igreja Açores, depois do meio dia, o presbítero que lidera o Santuário diocesano há três anos, soublinha a ligação entre este Santuário e o Papa. Na próxima segunda-feira completam-se 35 anos da primeira e única viagem de um papa aos Açores. João Paulo II esteve no campo de São Francisco a rezar diante da Imagem do Senhor Santo Cristo numa das raríssimas ocasiões em que a Imagem saíu do convento fora do período das festas.

“As memórias da visita do Papa permanecem profundamente marcantes” refere o sacerdote. Passados 35 anos, permanece a convicção de que é necessário recuperar e valorizar mais as palavras e os apelos deixados, sobretudo aos jovens, a quem recordava a importância de não ter medo.

“Num mundo atual marcado por incertezas, esse convite mantém-se atual: é preciso confiar na participação cívica e na responsabilidade individual na construção de uma sociedade melhor. Apesar das diferenças, importa reconhecer no outro um irmão e afirmar que a paz e o futuro não podem ficar reféns das decisões de poucos, cabendo também à sociedade civil fazer ouvir a sua voz e orientar os caminhos que deseja seguir”.

O programa das festas, praticamente idêntico ao dos outros anos,  inclue ainda momentos específicos como a vigília de oração, que decorrerá entre as 11 e a meia-noite de sábado, que será orientada pelo cónego Adriano Borges, reforçando o ambiente de recolhimento e espiritualidade que marca estes dias, em que a procissão da mudança, no sábado e a missa e procissão solene, no domingo são os momentos altos.

No plano organizativo, o provedor da Irmandade garantiu que tudo decorre com normalidade, incluindo a participação das filarmónicas e o figurino tradicional das cerimónias. A procissão manterá elementos habituais, como a guarda de honra e a visita aos doentes, sendo este ano a Polícia de Segurança Pública responsável pelo transporte do andor, numa lógica rotativa entre entidades, entre as Portas da Cidade e a Rua dos Mercadores, perímetro onde se situa o Comando e a esquarda da PSP.

As festas decorrem ao longo dos próximos dias, afirmando-se, uma vez mais, como um momento de fé, identidade e renovação espiritual para o povo açoriano.

Tríduo encerra com apelo ao serviço

No último momento de preparação, o padre Paulo Duarte, pregador do tríduo preparatório das festas,  desafiou os fiéis a “desatar as mãos para o serviço”, numa reflexão centrada na vivência comunitária da fé, na superação da indiferença e no verdadeiro sentido pascal da devoção ao Senhor Santo Cristo.

Na véspera do início das festas, o ambiente espiritual intensificou-se e, segundo o pregador, “o coração já habita nas celebrações”, mesmo antes do seu arranque formal. A intervenção destacou que, embora cada fiel viva a fé de forma individual, todos integram uma mesma comunidade eclesial, unida não pelo uniformismo, mas pela diversidade de dons e carismas.

Entre as ideias centrais, o sacerdote alertou para o risco de uma visão rígida da tradição, defendendo que esta deve ser vivida como caminho de transformação interior. Sublinhou ainda que a verdadeira conversão nasce da ação do Espírito e conduz ao bem maior.

Num mundo marcado pelo “cansaço e ruído”, reforçou a urgência de uma espiritualidade aberta ao outro, alertando contra a “arrogância espiritual” e a idolatria da devoção quando esta se sobrepõe à atenção ao próximo.

A imagem do Senhor Santo Cristo, com as mãos atadas, serviu de símbolo forte para a mensagem: um apelo a uma fé ativa, traduzida em gestos concretos de serviço. “Não teremos de ser nós a desatar as nossas mãos?”, questionou.

A reflexão incluiu referências ao Evangelho e às bem-aventuranças, reforçando a importância de reconhecer o outro como irmão e de evitar relações marcadas pela indiferença. “Se estamos em discórdia, que testemunho damos?”, interrogou.

O tríduo terminou com um apelo à oração e à construção de uma comunidade geradora de paz, deixando uma ideia central: preparar as festas é, acima de tudo, preparar o coração para servir.

 

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