Por Carmo Rodeia

Esta semana o Expresso, através de um texto de António Barreto, dava a conhecer que disponibilizará, a partir do próximo dia 24, o livro “História do Mundo” do britânico Andrew Marr, jornalista da BBC que nos habituámos a ver e a ouvir em excelentes documentários.

E entre muitas coisas António Barreto dizia que “a grande História perde muitas vezes qualidade e interesse, pela ausência de situações reais, pela subalternidade dos indivíduos e pelo desaparecimento dos dramas humanos”.

Não poderia concordar mais com ele. Sobretudo olhando para o nosso tempo, que infelizmente está maioritariamente preenchido de episódios que, certamente, daqui a 50 anos, se inscreverão nas piores desgraças do mundo, marcado pelo sofrimento infligido aos homens pelos homens. O que, na melhor das hipóteses nos mostra que aprendemos pouco ou quase nada com as leituras dos relatos da história.

Apesar das fomes e das doenças que mataram milhões de pessoas, das guerras, da tortura, da escravatura, do holocausto ou do gulag, sem esquecer os caminhos da liberdade, que ainda hoje tardam a chegar a algumas partes (demasiadas!) do planeta, aprendemos pouco nestes 21 séculos depois de Cristo e hoje preparamo-nos para repetir alguns dos erros do passado. Em nome do quê e de quem? Talvez daquilo a que chamamos louca e indevidamente civilização.

Nos Estados Unidos, Donald Trump lidera as sondagens na corrida à Casa Branca com poucos a questionarem tamanha loucura; a Inglaterra depois de dizer adeus à União Europeia no seu bafiento brexit anunciou, com a mão estendida da França, a construção de um muro em Calais para evitar a passagem dos indesejados para  o Reino Unido; na Rússia enquanto a Europa se entretém com discussões estéreis e se afasta cada vez mais da matriz e valores que a fundaram, Putin vai reduzindo direitos, liberdades e garantias, perante o olhar atento do Sr Erdogan que, numa purga sem precedentes, vai fazendo com que os turcos abandonem o sonho de pertencer a uma Europa cada vez mais desmembrada e desinteressante, cedendo ás tentações históricas de hegemonia e autoritarismo. Na Síria, na zona controlada pelo auto-proclamado estado islâmico, a proibição de música, do desenho e da filosofia está consagrada nos novos programas escolares, enquanto abundam as  instruções que ensinam as crianças a decapitar bonecas louras com uma faca. Ou a identificar, montar e desmontar metralhadoras, um processo que está detalhadamente explicado nos manuais escolares.

Olhando para estas estórias, que fazem e hão de ser contadas na grande História do século XXI, não me resta senão perguntar, em nome da minha sanidade mental, “de que cor são os sonhos de Deus?”, como na canção feita a partir do poema de José Tolentino de Mendonça. E a pergunta vale mais que qualquer resposta. Gostava de ser capaz de fazer como nessa mesma canção: “olhar como se fosse a primeira vez”, para este mundo em que vivemos. E com simplicidade tentar compreende-lo. Mas não consigo. Ou sou eu ou são os outros que como eu estão a ficar loucos, porque não há explicação para o que está a acontecer, sem que nós consigamos fazer qualquer coisa que o impeça. O melhor mesmo é continuar a perguntar “de que cor são os sonhos de Deus?”. Ousando arriscar uma resposta, certamente de uma cor muito diferente da da realidade do mundo dos homens.