Papa critica “mentalidade do desperdício” nas sociedades ocidentais

O Papa criticou hoje no Vaticano o que designou como “mentalidade do desperdício” nas sociedade ocidentais, chamando a “não descartar as pessoas”.

“A cultura do descarte diz: uso-te enquanto me serves; quando não me interessas mais ou és um obstáculo para mim, deito-te fora. E é assim que especialmente os mais frágeis são tratados: as crianças ainda não nascidas, os idosos, os necessitados e os desfavorecidos”, indicou, falando desde a janela do apartamento pontifício, antes da recitação do ângelus.

Perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, Francisco sustentou que “as pessoas não podem ser deitadas fora, nunca”.

“Cada um é um dom sagrado, cada um é um dom único, em todas as idades e em todas as condições. Respeitemos e promovamos sempre a vida, não descartemos a vida”, apelou.

A intervenção abordou a questão do desperdício de alimentos, defendendo uma “ecologia da justiça e da caridade, da partilha”.

No mundo, todos os anos é desperdiçado cerca de um terço da produção total de alimentos. E isso enquanto muitos morrem de fome! Os recursos da criação não podem ser usados dessa maneira; os bens devem ser conservados e partilhados, para que não falte a ninguém o que é necessário”.

Francisco recordou que, nas Missas dominicais, é lida hoje em todo o mundo a passagem do Evangelho de Mateus que relata as Bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), centrando-se sobre a primeira proclamação de Jesus: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.

“Quem são os pobres no espírito? São aqueles que sabem que não são suficientes para si mesmos, que não são autossuficientes e vivem como ‘mendigos de Deus’: sentem necessidade dele e reconhecem que o bem dele vem, como um dom, como uma graça”, precisou.

O Papa destacou que esta atitude leva a “não desperdiçar”.

“Este princípio é frequentemente desconsiderado, especialmente nas sociedades mais abundantes, onde a cultura do desperdício e do descarte dominam. As duas são uma peste”, alertou.

A reflexão apontou três “desafios” contra a mentalidade do desperdício: “não desperdiçar o dom que somos”, “não desperdiçar os dons que temos” e “não descartar as pessoas”.

Francisco concluiu a sua catequese dominical com uma série de perguntas, para a reflexão dos participantes: “Considero os mais frágeis como dons preciosos, que Deus me pede para cuidar? Será que me recordo dos pobres, daqueles que não têm o necessário?”.

Após a oração, o Papa lembrou que esta terça-feira inicia uma viagem apostólica à RD Congo e ao Sudão do Sul, agradecendo aos bispos e autoridades locais pelo convite.

“Aquelas terras são provadas por longos conflitos: a República Democrática do Congo sofre, sobretudo, no leste do país, pelos confrontos armados e a exploração ; já o Sudão do Sul, dilacerado por longos anos de guerra, não vê a hora para que acabem as contínuas violências, que obrigam tantas pessoas a viver deslocadas e em condições de grande inquietação”, declarou.

A intervenção sublinhou que a passagem pelo Sudão do Sul, de 3 a 5 de fevereiro, vai ser uma “peregrinação ecuménica” pela paz, na companhia dos responsáveis da Igreja Anglicana e da Igreja da Escócia (Presbiteriana).

Francisco saudou ainda as crianças da Ação Católica da Diocese de Roma, que esta manhã deram vida à “Caravana da Paz”, pelas ruas da capital italiana.

“Obrigado por esta iniciativa, tão preciosa, este ano, porque, pensando na martirizada Ucrânia, o nosso compromisso e a nossa oração pela paz devem ser ainda mais fortes. Pensemos na Ucrânia e rezemos pelo povo ucraniano, tão martirizado”, disse, acompanhado por dois representantes dos participantes, na janela do apartamento pontifício.

A iniciativa teve como tema, este ano, “Treinados para a paz!” e inclui dois projetos solidários, ligados à promoção da prática desportiva.

O Papa apelou, ainda, ao fim da “espiral de morte” nos confrontos entre israelitas e palestinos, que se intensificaram nos últimos dias.

“A espiral de morte, que aumenta dia a dia, mais não faz do que fechar os poucos vislumbres de confiança que existem entre os dois povos”, declarou, após a oração do ângelus.

Perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, Francisco dirigiu-se diretamente “aos dois governos e à comunidade internacional para que se encontrem, já e sem demora, outros caminhos que incluam o diálogo e a busca sincera da paz”.

“Recebi, com grande dor, as notícias que chegam da Terra Santa, em particular a morte de dez palestinos, entre eles uma mulher, mortos durante ações militares israelitas antiterroristas, na Palestina”, começou por referir o Papa.

A ação israelita da última quinta-feira foi relatada como um ataque ao campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia ocupada.

“Desde o início do ano, dezenas de palestinos foram mortos em confrontos com o exército israelita”, lamentou Francisco.

O Papa condenou, em seguida, “tudo o que aconteceu perto de Jerusalém, na tarde de sexta-feira, quanto sete judeus israelitas foram mortos por um palestino e outros três ficaram feridos, à saída da sinagoga”.

O ataque foi descrito pelo comissário da Polícia de Israel, Yaakov Shabtai, como “um dos piores ataques terroristas dos últimos anos”.

Já este sábado, duas pessoas ficaram feridas num novo ataque a tiro, em Jerusalém.

(Com Ecclesia)

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