Por Carmo Rodeia

Peço emprestado o título do poema de TS Eliot- “Quarta feira de cinzas”, publicado três anos depois da sua conversão, em 1930. Não é um fragmento bíblico mas é, porventura, um dos textos que mais nos aproxima da Quaresma.

Eliot afasta-se da pele de académico e numa atitude de quem crê com o coração apela a “Deus que se compadeça de nós”.

Neste poema, dividido em seis partes, dizem-se algumas coisas fundamentais para este tempo que nos visita surpreendentemente, convidando-nos à conversão.

Em primeiro lugar, a Quaresma vem ao nosso encontro para que nos reencontremos. Connosco, em primeiro lugar, mas também com os outros. É uma oportunidade para nos recentrarmos naquilo que é essencial, como se fosse um convite a um determinado tipo de jejum, não de doces mas de queixumes, de remoques e de ressentimentos. Uma espécie de desafio à entrega, simples mas absoluta.

Em segundo lugar, a Quaresma vem ao nosso encontro para nos conduzir à Páscoa, que é como quem diz, aceitar o desafio de fazermos caminho, caminhando. Aliás, o poema pergunta-nos qual é o sentido da redenção. E, ao mesmo tempo, dá-nos a resposta, desafiando-nos a caminhar. Como naquela pergunta do meio da vida quando decidimos fazer uma introspeção e perceber que sentido tem a vida. É a pergunta que acontece quando a vida é demasiado complexa para continuar a ser vivida sem questionamentos. É a pergunta que colocamos a nós mesmos quando há uma grande desorientação interior. Como se vivêssemos num labirinto, no meio da floresta. A Quaresma pode ser um terreno fértil para essa busca de sentido, embora fosse bom que não permanecêssemos neste período.

Finalmente a Quaresma vem ao nosso encontro para que a tensão criadora do Espirito de Jesus nos aponte para outro tipo e estilo de vida.

Portanto, como nos diz o Papa Francisco, na sua mensagem para a Quaresma deste Ano Jubilar estamos num tempo favorável “para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia”.

“Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de serem nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado, que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo”, diz o Santo Padre.

E, lembrando esse belíssimo poema de amor que é o Magnificat, sublinha “Por esta estrada, também os soberbos, os poderosos e os ricos, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder acalmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir”.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão, já que tantas vezes perdemos a vida!