Pelo padre José Júlio Rocha

Tudo começou com o desejo de voltar à ilha Graciosa um ano depois. Somos três padres, amigos de longa data, dos tempos do seminário dos anos 80, quando, naquela casa, ainda se sabia jogar à bola e éramos praticamente invencíveis em futsal. Naquele tempo, quando o futsal se chamava futebol de salão, dos mais de 60 jogos que o seminário jogou, só me lembro de duas derrotas e três empates. Arrasávamos.

No ano passado, três dias foram as minhas férias, passadas na Graciosa, nada mau, tendo em vista que muitos cidadãos nem férias tiveram, devido à pandemia. Três dias bem passados e, apesar da chuva constante, foi bom reencontrarmo-nos, falarmos do passado, fomentarmos uma amizade antiga.

O João Paulo vive na Praia da Graciosa, e eu e o Emanuel comprámos as passagens, que 60 euros de viagem são de aproveitar. Na segunda-feira, 5 de Julho, levantei-me às seis da manhã, às sete e meia já estava a aviar o “check-in” no aeroporto e, pouco depois, na sala de embarque, abanquei à espera do voo que devia partir às oito e meia. Primeiro contratempo estranho: o avião, logo de manhã, já tinha um atraso de uma hora, vindo de São Miguel. Disseram-nos, friamente, que o atraso se devia a questões operacionais, desculpa que nem a minha gata merece.

Com todo esse atraso, saltámos para o avião e apertámos os cintos. Esperámos um pouco demais e, azar dos azares, o comandante informou-nos que as condições meteorológicas no local do destino tinham piorado, não eram favoráveis e que, por isso, tínhamos de sair do avião e esperar na sala de embarque. “Pois, pois”, pensei, “se não se tivessem atrasado já lá estávamos, mas paciência”. Havia uma senhora de cadeira de rodas e uma outra senhora, mãe há três ou quatro dias, provavelmente de regresso a casa, com algumas dificuldades. Ninguém para prestar auxílio, acudir, acompanhar. Nada! Compassadamente, de meia em meia hora, lá vinha a voz metálica da menina a dizer que a SATA lamentava mas, por razões meteorológicas (nevoeiro), o voo estava atrasado e que, novidades, só daqui a meia hora. Isto até ao meio-dia, quando decidiram cancelar o voo e chamar os passageiros, um a um, para tratar de logísticas e comunicar quando seria retomada a viagem. Por incrível que pareça, não havia mais aviões disponíveis para aquele dia. Eu e o Emanuel esperámos, em casa, que nos comunicassem a hora do voo. Nada. Absolutamente nada no dia cinco. No dia seis, pela manhã, fui à minha agência de viagens para saber de alguma coisa. O que fiquei a saber? Que tínhamos ficado agendados para as cinco e meia da tarde desse dia seis. Dois aborrecimentos: porquê a SATA não nos disse nada? Porquê um voo, agendado para as oito e meia de um dia, só tinha lugar ao fim da tarde do dia seguinte? Mistérios que só a SATA conhece. Mas como só regressávamos na quinta, valia a pena passar dois dias com o João.

Às quatro da tarde do dia seis apresentámo-nos no aeroporto para retomar a viagem. Atrasos de novo. Através do “Flightradar” acompanhei o voo do Dash-200 que vinha de São Jorge e nos levaria à Graciosa. O nevoeiro, na Terceira, estava razoavelmente baixo, mas nada de especial. O avião fez duas tentativas de aterragem e desistiu, rumando para São Miguel. Já sabíamos que tudo estava perdido mas a comunicação só chegou meia hora depois, para dizer que o voo estava atrasado. Pelo “Flightradar” vi uma coisa curiosa: das Flores estava a sair um voo para Ponta Delgada; do Corvo já tinha saído um voo para Ponta Delgada; da Horta estava a levantar um voo para Ponta Delgada; do Pico, preparava-se para levantar um voo para Ponta Delgada; e, entretanto, aterrara, em condições piores, na Terceira, um voo que depois levantou para Ponta Delgada! Era o recolher obrigatório, o secular confinamento dos aviões da SATA em Ponta Delgada, deixando o costumeiro deserto nas outras ilhas.

Só às 19 horas nos informaram do que já sabíamos há muito: o voo para a Graciosa tinha sido cancelado. Mandaram-nos para o balcão da operadora e lá esperámos mais de meia hora sem que vivalma aparecesse. Trancados na sala de embarque, sem sair nem entrar, a frustração de toda aquela trapalhada de dois dias ia-se apoderando dos passageiros. E nós sem hipóteses nenhumas, porque todos os aviões da SATA estavam na eterna Ponta Delgada. Perdi mais de oito horas no aeroporto e ninguém me pediu sequer desculpa. As incapacidades desta companhia aérea de serviço público já têm pergaminhos e todos nós estamos a pagar, do nosso bolso, essas aventuras catastróficas e essas opções de voo que desrespeitam metade da população dos Açores. Não, não é bairrismo, meus senhores: é pura indignação. A incapacidade de encontrar, em dois dias, com as imensas abertas que o nevoeiro permitia, um aviãozito que nos levasse à ilha mais próxima é alarmante.

De tudo isto, só consigo chegar a uma triste conclusão: a SATA precisa ter mais respeito pelos seus utentes.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.