Pelo Pe Teodoro Medeiros

“Nightcawler, Repórter na Noite”, um filme americano com fôlego; uma boa história para contar e os meios necessários para o fazer. Filme de acção, estudo do carácter das suas personagens, crítica social, performance de um ator, retrato da sociedade atual e, talvez, uma aguda reflexão sobre o efeito da tecnologia na vida hodierna.  A primeira realização do californiano Dan Gilroy não podia ser mais auspiciosa.

Objeto subversivo, presenta a sociedade do pós-Deus e pós-religião de forma crua e direta; câmaras discretas (o que nós vemos) retratam câmaras indiscretas (o ganha pão do protagonista) mas o grande feito é que a narração nunca se despista de ser um crescendo. Os acontecimentos adensam-se, o “herói” vai evoluindo na sua atividade, na sua empresa, e o que aprendemos sobre ele é sempre mais e mais radical.

Jake Gyllenhaal protagoniza esta história de um ladrão que muda de rumo; decide filmar locais de acidentes e crimes para vender as imagens a uma estação televisiva de notícias. É praticamente assim que começa o filme e termina mantendo esse esqueleto, já preenchido com tantíssimos nervos e músculos que programam e executam bem, à sua maneira. Figura calma, psicótica, perigosa cuja alma se despe perante os nosso olhos; envolto desde o início numa estranha intensidade que é espelho, depressa se chega lá, da sua pouca humanidade, da sua indiferença ao sofrimento dos outros.

Ficam muitas linhas de interpretação possíveis; o tema de alguém que abandona uma vida pouca digna e abraça algo honesto (mas sem despir totalmente as suas virtudes antigas, agora bastante oportunas); o self made man que chega ao topo pela sua dedicação mas não sabe o que é a compaixão, nem para com aqueles que lhe estão mais próximos; na cultura do espetáculo as pessoas são números que se colocam depois dos cifrões, carne para canhão num circo eterno em que os espetadores devoram as feras.

Quando apareceu, a televisão também foi atacada como se fosse algo de iníquo, uma caixa que separa as pessoas, que corta o diálogo nas famílias, que destruiria o convívio são. Muitos anos depois, já se pode encerrar esse capítulo: há que saber escolher o que se vê, saber limitar o número de aparelhos que uma só casa deve ter e colher o que há de bom (ah! Falta ainda que as redes sociais façam petições para se acabar com a pior ideia que o ser humano já teve; os big brothers, mas isso deve estar mesmo a sair, é já a seguir!).

O problema contemporâneo parece ter que ver com o direito à informação e à imagem: tudo tem de ser filmado com um telemóvel. Tudo tem de ser interrompido enquanto se troca mensagens. A esse propósito, há uma deliciosa foto da visita do Papa Francisco à América Latina em que se veem os sacerdotes locais, já devidamente paramentados, com os seus tablets e quejandos desembainhados, empunhados como espadas apontadas ao coração da nossa civilização, tentando captar o Papa que chegava. Simplesmente deliciosa a fotografia, passível de ser lida com mais ou com menos malícia, conforme se queira, mas sintomática de um tempo.

É neste tempo ainda que a atenção se espartilha e desfragmenta até entrar no vermelho: o telemóvel interrompe no cinema, no concerto, no almoço, e até na igreja. Não se vive apenas na imagem, o simulacro da realidade (Jean François Lyotard?), mas uma autêntica interrupção da realidade… o fio da consciência não se desliga nem durante a noite, entre alertas do facebook e sms imprescindíveis. Dentro de poucos anos, as pessoas deixarão de pensar em nada que não brilhe repetidamente.

 

NB- “Nightcrawler, Repórter na Noite” é projetado no domingo, dia 15 de Novembro, pelas 15:00, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo (inserido no Ciclo “Pensar o mundo” uma parceria do Seminário Episcopal de Angra com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo).