Por Carmo Rodeia

Com as eleições de domingo, Itália está entre a ingovernabilidade e um governo eurocético e anti-imigração. O Movimento 5 Estrelas é o partido mais votado, a Liga Norte sobiu em flecha. Silvio Berlusconi (regressado)  e Matteo Renzi (encolhido) fracassam.

Assim se resumem as eleições em Itália deste domingo. A crónica de um terramoto anunciado confirma-se, tal como se vem confirmando em inúmeros países em todo o mundo. Aqui ganha uma relevância maior como aconteceu nos EUA com a vitória de Trump. Afinal não estamos a falar de países periféricos no mundo.

Acenam-nos agora com uma coligação entre os dois vencedores tal é a convergência de pontos de vista: euroceticismo, imigração, impostos…entre os dois partidos, há vários pontos em comum. Um deles, diz respeito a um dos principais temas destas eleições: o combate à imigração e, embora os moldes dessa opção sejam diferentes, não devem deixar de nos preocupar, porque outros muros virão acercar-se de Roma, como já se fizeram presentes na Hungria ou na Polónia.

Depois, a União Europeia e o euro. A Liga quer discutir um regresso ao tempo pré-Maastricht — o que implicaria uma saída do euro — e o M5E não descarta essa ideia.

Até no combate às vacinas os dois partidos estão em acordo. Os dois querem baixar de 10 para 4 o número de vacinas obrigatórias para menores de 16 anos. Por isso, com algum exagero, há quem chame a este hipotético acordo uma aliança anti-imigração, anti-Europa e anti-vacinas.

Mas, a principal preocupação que devemos ter é o seu comum populismo; o ser contra sistema e o eco favorável que essa posição provoca junto dos eleitores.

O crescimento de movimentos populistas e xenófobos em todo o mundo é um grave perigo para a humanidade e sempre que um líder pretende tirar partido do medo, da insegurança, de disputas, e até da, tantas vezes justificada, indignação das pessoas, devemos desconfiar.

Uma desconfiança que deve ser sempre colocada em primeiro plano, quando ouvimos comentários acerca das vantagens de certas soluções como as que ouvimos do  antigo chefe de estratégia da Casa Branca de Donald Trump, Steve Bannon. Numa entrevista publicada domingo no Corriere della Sera, o antigo diretor do Breitbart falava sobre as virtudes de uma coligação governativa do M5E e da Liga: “Uma coligação entre todos os populistas seria fantástica. Iria perfurar o coração de Bruxelas, ia meter-lhes um medo tremendo”.

Não é Roma que está ingovernável ; é mesmo o mundo que está a ficar louco. A deriva populista não é boa. Nunca foi. Quando é que vamos aprender?

Há uns anos atrás o humorista Ricardo Araújo Pereira afirmava que não é a votação num palhaço (esta era a profissão de Giuseppe Piero Grillo, mais conhecido como Beppe Grillo ) que mostra a crise da democracia, porque há palhaços com excelentes ideias e engenheiros ou advogados sem ideia alguma. O problema não é a profissão é o programa. Ou a falta dele. As eleições em Itália mostraram como Ricardo Araújo Pereira tem razão. O voto dos italianos significou uma vez mais a humilhação do sistema político e a sua capitulação. Mas é que ninguém aprende…