Por Igreja Açores

A três dias da ordenação sacerdotal Jacob Vasconcelos procura viver a intensidade e a exigência do tempo com a serenidade possível, de forma a desfrutar de cada momento “como Deus quer”. Entre os preparativos conseguiu tempo para falar com o Igreja Açores, uma entrevista que pode ser ouvida na integra no próximo domingo, dia em que celebra a sua missa nova na igreja onde foi batizado, em Ponta Delgada, na ilha das Flores.Na entrevista fala sobre a utilidade da sua vocação- “uma das marcas da minha vida”-, do caminho que percorreu, das escolhas que fez e do gosto que tem em estar próximo das pessoas.

Igreja Açores (IA)- Qual é o sentimento que o invade nestes dias?

Jacob Vasconcelos (JV)- É uma enorme alegria, sobretudo quando sabemos que estamos a corresponder na medida das nossas possibilidades, e apesar das nossas insuficiências, ao projecto que Deus tem para todos os seres humanos. E , por isso, é uma enorme alegria para mim saber que estou a corresponder à vontade de Deus e tive a graça de ter muitos sinais ao longo dos anos que este é o caminho a seguir. Um caminho que se pauta pelo serviço, pela entrega abnegada aos outros.

Mas, depois experimento também alguma ansiedade, porque há sempre algo que me tira o sono: a questão de não ser capaz de corresponder da melhor forma aquelas que são as exigências do Evangelho. E esta consciência acentuou-se durante este período do diaconado em que senti com mais peso a responsabilidade que é a de nós pregarmos com muito entusiasmo mas não sermos consequentes. E isso é algo que me preocupa cada vez mais porque o mundo precisa, sobretudo, de pessoas que mostrem com os seus gestos, com a sua forma de estar e de acolher… é a melhor evangelização que podemos fazer.

IA- Quais são os desejos?

JV- Tentar corresponder às missões que me vão ser entregues. Acima de tudo ser fiel. O Seminário foi um caminho muito importante ao qual, com a saída (muito chorada confesso), ainda dou mais valor porque entrei com 15 saí aos 24. Foi uma caminhada muito importante para o que sou hoje. Agora o grande desafio é tentar corresponder e, sobretudo, ser fiel.

IA- Que força move uma criança, nos dias de hoje, para aos 15 anos ir para o Seminário?

JV- A vocação tem o seu quê de mistério. E o mistério não é aquilo que não compreendemos mas o que não escutámos, e a vocação é isso porque parte do mistério de Deus. Sair de casa foi uma enorme aventura. E saí com entusiasmo e com o apoio de muitas pessoas sem medir muito o que me esperava. Na vida, por vezes, temos de dar estes saltos. Desde aminha infância que pensei ir para o Seminário mas era algo que seria para um futuro mais adiantado. Naquele ano as coisas aconteceram assim: houve um conjunto de pessoas que foi dizendo aquele era o momento certo, que não teria nada a perder e realmente percebi isso. Mesmo que hoje não estivesse aqui, toda a formação que recebi no Seminário só tinha o sentido do enriquecimento, do amadurecimento, do crescimento. Como parti com este espírito aberto, e porque contei com a ajuda de muitas pessoas, fui vendo que este projecto fazia sentido.

IA- Já se perguntou porque é que tinha sido o escolhido?

JV- Já, muitas vezes! Ao longo do caminho vi inúmeras pessoas do meu curso e de outros, com mais capacidades, com mais formação e com mais potencialidade do que eu que escolheram outros rumos… a única resposta que encontro é esta: quando Deus tem uma missão vai dando a luz suficiente para a desenvolvermos e para a levarmos por diante. Agora é difícil perceber porque eu e não outro… e faço essa pergunta muitas vezes. A única resposta que me consola é olhar para o que sou e perceber que não seria tão útil noutra vocação como nesta. E acho que Deus me foi dando essa luz. Poderia ter constituído família, poderia ter escolhido uma profissão, mas acredito que nenhuma dessas opções me preencheria tanto como este caminho e sinto que não seria tão útil à sociedade e a Deus noutra opção. A vocação sacerdotal é muito sublime porque toca a vida humana em todas as suas dimensões e isso dá-me um enorme entusiasmo. Vivo muito em função da utilidade; é uma marca. Sempre pautei a minha vida de acordo com a utilidade: de que forma posso ser útil aos outros. E esta é a resposta que dou à pergunta.

IA- Houve momentos em que se imaginou com a sua própria família?

JV- Claro que sim, até porque as nossas opções também têm de ter os outros em conta. Quem opta cegamente por um caminho sem ter o outro em conta, nunca chega a por em causa outras opções,  é um caso muito sério e nunca se sabe se esse é mesmo o caminho que o faz feliz. Essa é uma das grandes vantagens do Seminário: por ser uma caminhada de discernimento coloca-nos em cima da mesa todas as hipóteses. Lembro que estudei no ensino regular até ao 12º ano. No Liceu de Angra conheci muita gente que me marcou, inclusive colegas do sexo feminino que me faziam pensar e questionar se este era o caminho. Lembro-me de muitos sacerdotes, daqueles que têm uma formação sólida e que marcam, que diziam que alguém que quer ser padre tem que ter o desejo de ser pai, no verdadeiro sentido da paternidade e houve momentos em que pesei o que poderia valer mais e, feitas as contas, por assim dizer, simplisticamente, esta foi a opção porque verdadeiramente é esta a opção que me faz plenamente feliz.

IA- Lembra-se do momento em que teve essa certeza?

JV- Há vários momentos e situações muito especificas em que me recordo de ir construindo essas certezas. Nos retiros por exemplo, e eu tive a sorte de ter um extraordinário acompanhamento espiritual no Seminário, não só com o diretor espiritual mas com outros professores, e recordo algumas palestras que me foram dando a certeza, em termos humanos, da opção que deveria fazer. Mas são momentos muito íntimos que me são difíceis de descrever. Não se trata de nada abstracto mas são indescritíveis porque resultam da oração, do contacto com a palavra de Deus. Diria que é um conjunto de momentos e sem eles era difícil.

IA- O acompanhamento espiritual que teve e que acaba de referenciar foi determinante para esta opção?

JV- Sim, sem ele esta opção não teria sido tomada da mesma forma.

Sou oriundo de uma realidade pequena, que muito amo, mas que é uma realidade limitada. Ir para a Terceira, sozinho, permitiu abrir-me as asas com tudo o que isso implica. Contactar o mundo estudantil mais aberto e com mais problemas, também, me ajudou nesta opção. O facto de ser filho único (e isso nunca me marcou traumaticamente porque foi sempre tudo muito bem orientado na infância) a verdade é que ter saído de casa muito novo e ter contactado com mundos diferentes- o estudantil e o Seminário- fez com que opção fosse esta. Não digo que pudesse ter sido outra, mas insisto, teria sido uma opção tomada de outra forma.

IA- Regresso à idade de entrada no Seminário e ao acompanhamento espiritual desde cedo. Da sua experiência e de acordo com a realidade dos nossos dias- famílias mais pequenas, maior imaturidade dos jovens- com que idade devem os jovens partir para esta aventura do Seminário?

JV- Depende, cada caso é um caso. A história de cada um é diferente, desde logo no seio da família. Nestes anos do Seminário contactei com inúmeras famílias e noto que nalguns casos a entrada precoce é profícua, sobretudo na situação de excessivo protecionismo. Qualquer  vocação exige cada vez mais, e a vocação sacerdotal por maioria de razão, um acompanhamento personalizado, atendendo à circunstância de cada pessoa. Encontrar receitas universais para todos não dá bom resultado. Graças a Deus o Seminário compreendeu isso e está aberto para alunos mais novos e outros mais velhos.

IA- Liderou a Conferência Vicentina, tem um actividade pastoral intensa também na catequese e sobretudo toda a gente o acha muito simpático e serviçal. Do ponto de vista da ação pastoral qual ou quais as áreas em que se sente mais confortável, por assim dizer?

JV- É uma grande pergunta (Risos). Não sou uma pessoa extraordinária, sou um ser humano como todas as outras pessoas e tenho o meu avesso. Costumo brincar e digo que o ser humano é como a roupa: tem a aparência e por baixo do que vemos há muito tecido. E eu não sou exceção. Tento servir mas tenho muitas insuficiências que tento mitigar.

IA- Quais foram as áreas de estudo que mais gostou?

JV-Quanto às áreas académicas de estudo, sempre gostei da Teologia e de Sagrada Escritura sobretudo naquilo que possa dizer em concreto às pessoas. A Teologia Bíblica,  sem dúvida, é a área que mais me cativa. O Direito Canónico sempre foi mais difícil para mim pois  é uma linha de pensamento menos reflexiva e tenho alguma dificuldade em segui-la. Tal como a Filosofia ou a Ética, estas sobretudo porque o ensino regular não nos dá ferramentas para acompanharmos em profundidade estas áreas. Felizmente o Seminário encontrou uma forma de mitigar esta insuficiência logo no ano propedêutico e isso é bom porque facilitará a caminhada para um nível de dificuldade maior. Mas, felizmente, consegui superar todas as dificuldades.

IA- Insisto no futuro: que áreas de pastoral o fazem sentir mais confortáveis?

JV- Não tenho grande expectativas sobre este assunto. Estou disponível para tudo o que a Igreja precisar. O contacto com as pessoas é para mim o mais importante.

IA- O que é o chamamento que é uma coisa que os seus colegas estão sempre a falar?

JV- É algo difícil de definir… é vivido de forma diferente por cada pessoa. Mas é sobretudo um encontro: olharmos para a nossa realidade e confronta-la com aquilo que Deus quer. E é neste encontro que se define a vocação.

IA- Como é que está a ser o regresso a casa nestes dias de tanta azafama?

JV- Indescritíveis. Nunca pensei que isto mobilizasse tanta gente quer das Flores quer de fora. Está sempre gente a chegar e acima de tudo tem-me tocado imenso o empenho e a preparação de tudo o que fazem. Nunca fiz nada de mais para receber tanto. É um ambiente muito bonito

IA- Quem é que gostaria que estivesse consigo e não pode estar?

JV- Desde logo os que já partiram: o meu pai, os meus avós, alguns tios…mas felizmente sei com a certeza da fé, e da esperança na vida eterna, de que eles estão verdadeiramente presentes e atuantes como intercessores, nestes dias.

IA- O que lhe vai na alma por estas horas?

JV- Ter a serenidade para poder tirar o maior proveito espiritual possível de todas e cada uma das situações.

 

Díácono Jacob Vasconcelos

Natural de Ponta Delgada das Flores

Nasceu a 21 de junho de 1993

Entrou para o Seminário em 2008

Ordenado Diácono a 8 de dezembro de 2016

Ordenação sacerdotal dia 1 de julho de 2017, Santa Cruz

Missa Nova dia 2 de julho de 2017, Ponta Delgada