Procissão dos Terceiros mantém viva tradição secular na Ribeira Grande

Mesa Administrativa da Misericórdia aguarda que a procissão venha a ser definitivamente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial

Foto: Mesa da Santa casa da Misericórdia/APC

A Ribeira Grande voltou a cumprir uma das mais antigas tradições religiosas açorianas com a realização da Procissão dos Terceiros, iniciativa promovida pela Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, que assim renova um legado iniciado há séculos pela Ordem Terceira Franciscana.

Desde os primórdios do povoamento dos Açores, os frades mendicantes procuraram evangelizar as populações através de procissões penitenciais, que marcaram profundamente a religiosidade popular e o calendário litúrgico das ilhas. Graças ao empenho e à dedicação da Misericórdia da Ribeira Grande, esta manifestação de fé mantém-se viva até aos dias de hoje, reunindo fiéis de várias comunidades da ouvidoria.

As cerimónias deste ano foram presididas pelo padre Carlos Simas, Ouvidor da Ribeira Grande. A missa solene foi animada liturgicamente pelo coral interparoquial da ouvidoria, dirigido por Gilberto Canejo, com acompanhamento ao órgão de tubos pelo músico José António Garcia, que conferiram particular dignidade ao momento celebrativo.

Na homilia, o Ouvidor destacou o significado espiritual da imagem do Senhor da Coluna, lembrando que “embora a imagem nos fale silenciosamente do mistério da dor, da entrega e do amor sem medida, a Igreja convida-nos nesta Quaresma a iniciar um caminho de conversão, de combate espiritual e de renovação interior”.

O sacerdote sublinhou ainda que a devoção ao Senhor da Coluna constitui “uma verdadeira escola de paciência, de humildade e de amor, que, unido ao de Cristo, pode tornar-se fonte de redenção e de esperança. Num mundo que foge da dor e rejeita o sacrifício, Cristo lembra-nos que o amor verdadeiro é sempre exigente, mas profundamente fecundo”.

No primeiro domingo da Quaresma, as ruas da Ribeira Grande encheram-se de fiéis de variadas idades. A procissão, que outrora percorria a cidade na Quarta-Feira de Cinzas, renasceu com renovado fulgor, tornando-se evidente que este culto permanece vivo no coração dos católicos.

Misturaram-se encapuzados, escoteiros, ranchos de romeiros micaelenses, bombeiros e inúmeros trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, todos unidos como um só corpo, precisamente no dia em que a instituição assinalava 433 anos de existência. Fundada em 1593 por Filipe I de Portugal, com as mesmas prerrogativas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a instituição ergue-se, há mais de quatro séculos, como casa de amparo e porto seguro para os que sofrem.

Cada passo da procissão ecoou a história de gerações que fizeram da fé serviço e da compaixão caminho. Como recordou o padre Carlos Simas, “celebrar estes 433 anos é agradecer a Deus por tantas mãos que se estenderam aos frágeis, por tantos corações que souberam acolher quem sofre, repartir o pão com quem tem fome, velar os doentes e defender a dignidade dos mais vulneráveis”.

No final, ficou o apelo a que a celebração seja mais do que memória: que se torne semente de renovação da fé e de compromisso com a misericórdia.

Com profunda participação popular, a Procissão dos Terceiros reafirma-se como um dos momentos mais significativos da vivência quaresmal na Ribeira Grande, perpetuando uma tradição secular. A organização destaca ainda o contributo do Museu Vivo do Franciscanismo para a grandiosidade desta manifestação religiosa.

A Mesa Administrativa da Misericórdia aguarda que a procissão venha a ser definitivamente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, enquanto elemento identitário açoriano, encontrando-se o respetivo processo de candidatura em curso.

(Com António Pedro Costa)

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