Cenários de esquizofrenia mansa

Pelo padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores / JC

Entrei num bar-restaurante, não da nossa ilha, mas não muito longe. Precisava de uma refeição um pouco mais que ligeira. Um bitoque.

Uma mesinha pequenina com tampo de madeira e quatro pés a partir de um eixo central, daquelas que balançam sempre, mesmo que ponhas um guardanapo debaixo do pé mais curto. Três televisores a debitar futebol em voz baixa, mas com um insuportável ruído visual. Restaurante que se queira restaurante, não tem ecrã.

Lá pedi o meu bitoque quando reparo, na mesa ao lado direito, numa mãe, provavelmente na casa dos quarenta e uma filha entre os onze e os treze anos. A mãe olha para o telemóvel de cima para baixo, como quem usa lentes progressivas, como quem olha com arrogância e desprezo qualquer coisa, mexendo nervosamente o polegar direito sobre a superfície do ecrã. A filha segura o telemóvel na horizontal, a cinco centímetros dos olhos e parece apaixonadíssima pelo que vê, tal é o olhar, o sorriso, os matizes do rosto.

O bitoque parece que está a ser cortado da vaca, tal é a demora. E, nesse entretanto, vislumbro um casal que se senta na mesa à minha frente. Uma criança loira, certamente não mais de três anos, acompanha-os. Não preciso de dois minutos para perceber, pelo seu comportamento, que vivem juntos há pouco tempo (demasiadas expressões de carinho), que a criança é filha dela e ele é o padrasto. Enquanto pedem de comer, colocam, diante do miúdo de três anos, o ecrã de um “tablet” com desenhos animados. O irrequieto puto sossegou por uns instantes.

Olho para o meu lado direito. A mãe de quarenta e tal anos olha, cada vez mais arrogante, o seu telemóvel de contornos lilases. A filha aproximou o seu mais um centímetro do nariz e está cada vez mais entusiasmada, mais envolvida, mais ausente, mais nada.

Entretanto, o puto dos pais separados levantou desconformemente o som do dispositivo e toda a gente na sala se incomodou. A mãe pede ao filho que baixe o som. Ele grita que quer ver. O padrasto, com um sorriso artificialíssimo, suplica ao puto de três anos que baixe o som. O rapaz berra que quer ver. Todos olham para a mesa, menos a mesa ao meu lado direito, cujas utentes continuam estampadas nos seus ecrãs, uma com desprezo, outra com paixão.

Lá o padrasto e a mãe conseguem baixar o som do “tablet”, mas o puto de três anos berra uns valentes decibéis acima do som anterior do dispositivo. Padrasto e mãe entram em pânico e, durante uns três ou quatros minutos, assistimos à cena patética de dois adultos, uma mãe e um padrasto, a sorrir, a desfazerem-se em mesuras, em carícias, em “xius”, para acalmar a fera de três anos que cada vez berra mais alto. Lá encontraram uma solução de compromisso: o som alto, mas não tão alto. Continuamos todos incomodados e a mãe e o padrasto, ela com a mão em cima da mão dele, envergonhados com o clima criado.

Já estou a devorar o meu bitoque há minutos, incomodado com a gritaria dos macacos do “tablet” do miúdo quando, da mesa da direita, a mãe se levanta, depois de quarenta minutos a olhar, com desprezo, o telemóvel. Levanta também, literalmente, a filha da cadeira, e esta sempre a olhar o telemóvel, já a três centímetros do nariz. Veste-lhe o kispo e ela de olhos no ecrã. Empurra-a para a porta e, finalmente, a filha faz alguma coisa que não seja só olhar para o ecrã: começa a andar. Sempre colada ao telemóvel.

À mesa da frente, a do “tablet” aos berros, chega o “garçom” e sugere que baixem o som, porque toda a gente está incomodada (o padrasto segura um gelado para o puto o ir lambendo enquanto vê os macaquinhos ruidosos). Ela diz que eles já vão embora. Demoram mais cinco minutos a acabar, bem depressa, o hamburger que pediram, levantam-se e ele pega no miúdo ao colo, o miúdo sempre de olhos grudados no ecrã ruidoso, pagam a conta e saem e o puto sempre a ver os macacos e o som a desaparecer devagarinho, à medida que se vão afastando rua fora.

Não destruam mais os cérebros das nossas crianças.

Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do jornal Diário Insular, na rúbrica Dorsal Atlântica.

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