Pregador da festa do Senhor dos Passos na Horta convida fieis a aprofundar as três virtudes teologais e rejeita visões utilitaristas da fé

Começou esta tarde na Horta a preparação para a festa do Senhor dos Passos, que, no domingo, reunirá todas as paróquias da cidade da Horta

Foto: Senhor dos Passos da Igreja Matriz da Horta/IA/CR

Na abertura do tríduo do Senhor dos Passos, na Matriz da Horta, o padre José Miguel Cardoso lançou um conjunto de perguntas diretas aos fiéis, desafiando-os a examinar a sua relação com Deus, a coragem de assumir o amor por Ele e a disponibilidade para ajudar quem se encontra perdido.

A pregação do padre José Miguel Cardoso assinalou o arranque do tríduo preparatório do Senhor dos Passos, na Matriz da Horta, numa celebração presidida pelo ouvidor, reunindo numerosos fiéis.

Na sua reflexão, o presbítero, que é oficial no Dicastério romano da Educação e Cultura onde colabora diretamente com o cardeal José Tolentino Mendonça, convidou a comunidade a “descobrir o caminho para o céu”, neste período, tendo como referência Jesus no mistério dos Passos. A homilia centrou-se nas três virtudes teologais – fé, esperança e caridade – apresentadas como dádivas essenciais de Deus à vida humana.

O pregador reconheceu que há momentos que fazem “estremecer a fé”, como a doença, os insucessos e dificuldades pessoais, alertando, porém, que a relação com Deus não depende da iniciativa humana, mas do próprio Deus, que toma sempre a dianteira.

“Deus é amor”, afirmou, sublinhando que não é uma figura distante, nem um “político que promete e não cumpre”, nem um “polícia”, mas um Pai cuja misericórdia permanece mesmo diante do pecado.

Ao longo da pregação, destacou que ninguém está excluído do amor divino e que cada pessoa é “uma flor única no jardim de Deus”. Rejeitou também visões utilitaristas da fé, lembrando que Deus não é “um contabilista do pecado, uma máquina de milagres ou um supermercado”, mas um Deus que perdoa, abraça e chama à relação.

O sacerdote apelou ainda à vivência comunitária, inspirada na Santíssima Trindade, alertando contra o isolamento e a indiferença.

“Acreditar neste amor é ter fé”, afirmou, associando essa fé à empatia, ao amor concreto e à imitação de Deus no cuidado pelos outros.

A homilia terminou com o exemplo de Maria, Senhora das Dores, apresentada como modelo de fidelidade e discipulado, convidando os fiéis a seguirem o mesmo caminho de confiança e entrega.

O pregador é sacerdote da arquidiocese de Braga e autor de vários livros que concretizam o amor de Deus e a alegria do cristão na relação com o mundo.

A festa do Senhor dos Passos na Horta é uma das mais importantes manifestações quaresmais da cidade faialense, juntando as várias comunidades da cidade numa manifestação publica de fé que leva centenas de pessoas à rua numa procissão em que se incorporam também as filarmónicas da ilha.

Mais do que um conjunto de celebrações religiosas representa um dos mais profundos testemunhos da espiritualidade penitencial que, desde os primeiros povoadores das ilhas, moldou a vivência da Quaresma nos Açores. Inspirada na tradição franciscana, fortemente enraizada no arquipélago, esta devoção convida os fiéis à conversão, à contemplação da Paixão de Cristo e à renovação interior.

O programa tem início com o Tríduo preparatório, que decorre de 26 a 28 de fevereiro, reunindo momentos de oração, celebração e reflexão.

O tríduo prossegue esta sexta-feira, 27 de fevereiro,  com a participação da Filarmónica de Nossa Senhora das Angústias. O dia será marcado por um forte apelo à reconciliação, com Confissões Quaresmais entre as 17h30 e as 18h30 e novamente entre as 19h30 e as 20h30. Às 18h30 celebra-se a Missa, com Sermão.

No sábado, 28 de fevereiro, a comunidade volta a reunir-se para a Via-Sacra às 18h00 , seguindo-se a Missa, com Sermão às 18h30. A organização informa que neste dia não se celebra Missa na Igreja do Carmo.

O ponto alto das celebrações acontece no domingo, 1 de março, com a Solenidade do Senhor dos Passos.

Às 16h00 saem simultaneamente duas procissões: da Igreja da Conceição parte a imagem de Nossa Senhora das Dores, acompanhada pela Filarmónica Artista Faialense; da Igreja Matriz sai a imagem do Senhor dos Passos, acompanhada pelas Filarmónicas União Faialense e Nova Artista Flamenguense. O momento mais emblemático será o Sermão do Encontro, às 16h45, evocando o encontro de Cristo com Sua Mãe no caminho do Calvário – um dos quadros mais tocantes da piedade popular quaresmal.

A Missa da Solenidade do Senhor dos Passos será celebrada às 18h00, presidida pelo Padre José Miguel Cardoso. A procissão contará ainda com a presidência de Frei Raimundo Valdo Nogueira, Postulador Geral da Ordem dos Frades Franciscanos Conventuais.

A organização informa que, neste domingo, não se celebra a Missa das 12h00 na Igreja Matriz.

As festas do Senhor dos Passos ocupam um lugar central na tradição quaresmal das ilhas. Desde o século XV, com a presença dos primeiros frades franciscanos e o espírito penitencial que trouxeram consigo, a espiritualidade açoriana foi marcada pela meditação da Paixão de Cristo, pelas procissões e pelos sermões que convidam à conversão.

No Faial, esta herança mantém-se viva, envolvendo diferentes gerações, irmandades, filarmónicas e comunidades paroquiais. A festa é expressão de fé, mas também de identidade cultural e memória coletiva.

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