Alfredo Teixeira: a fraternidade é o contributo central do cristianismo para o mundo atual, defende Alfredo Teixeira nos Açores

Entrevista vai para o ar este domingo depois do meio-dia, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra

Foto: Igreja Açores/CR

 

O sociólogo da religião e professor da Universidade Católica Portuguesa, Alfredo Teixeira, afirmou esta semana, nos Açores, que a fraternidade é hoje uma das principais propostas que a tradição cristã pode oferecer à construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Em entrevista ao programa de rádio Igreja Açores, o investigador sublinhou que, num contexto de sociedades cada vez mais secularizadas, o cristianismo não pode ter qualquer pretensão de tutela moral sobre a sociedade mas pode assumir-se como uma fonte de inspiração ética e cultural. Nesse sentido, destacou a atualidade do pensamento do filósofo Jürgen Habermas, recentemente falecido, que defendia o contributo das religiões para o espaço público, mesmo em sociedades pós-seculares.

Segundo Alfredo Teixeira, “a categoria de fraternidade” é particularmente relevante, pois está enraizada na tradição cristã desde as suas origens e foi sendo reinterpretada ao longo da história, com especial destaque para a tradição franciscana e, mais recentemente, para o magistério do Papa Francisco.

O académico considera que o atual contexto de perda de influência social da religião pode, paradoxalmente, abrir novas possibilidades para a mensagem cristã.

“As sociedades em que o cristianismo exerceu hegemonia não foram necessariamente mais fraternas”, afirmou, defendendo que a fé deve hoje traduzir-se numa proposta ativa de cidadania e transformação social, e não apenas numa experiência individual ou espiritual.

Teixeira alertou ainda para a necessidade de os cristãos recuperarem a consciência do seu papel no mundo, ultrapassando uma vivência meramente ritual da fé. Inspirando-se nas primeiras comunidades cristãs, recordou a sua dimensão inclusiva e transformadora, capaz de ultrapassar barreiras sociais, culturais e económicas.

Numa análise ao presente, marcado por incerteza e fragmentação social, o investigador reconheceu os desafios colocados pelas novas tecnologias e pelos fenómenos de “tribalização”, mas destacou sinais de esperança, sobretudo entre os jovens. Apesar de crescerem num ambiente digital, continuam a valorizar profundamente a amizade e a relação interpessoal, o que pode abrir caminhos para uma cultura de fraternidade.

Por fim, nesta entrevista, que vai para o ar na íntegra este domingo, o quinto da Quaresma, Alfredo Teixeira defendeu que a Igreja deve evitar uma lógica de fechamento identitário, alertando para o risco de criar “tribos católicas” em vez de promover uma presença aberta e dialogante no espaço público. A mensagem cristã, concluiu, deve ser proposta com “linguagem de hospitalidade”, sem imposição, mas com capacidade de sedução e transformação.

Teixeira alertou ainda para a necessidade de os cristãos recuperarem a consciência do seu papel no mundo, ultrapassando uma vivência meramente ritual da fé.

“O que é que, de facto, a nossa tradição […] traz para construir esse espaço comum?”, questionou, apelando a uma reflexão mais profunda sobre a identidade cristã. Inspirando-se nas primeiras comunidades, recordou a sua força transformadora: “será que temos consciência de que a mensagem cristã pode ser um horizonte de transformação do espaço social?”. Para o investigador, há o risco de reduzir a fé a uma experiência individualista — “uma piedade que interiorizamos […] numa ótica de bem-estar espiritual” — quando, na sua essência, ela deve “desinstalar desse bem-estar” e impulsionar uma vivência ativa da cidadania e da fraternidade.

Entrevista na íntegra no programa de rádio Igreja Açores e em podcast aqui em www.igrejaacores.pt

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