
O núncio apostólico nos Camarões e Guiné Equatorial adianta que a passagem do Papa pela “zona de guerra” de Bamenda, no território camaronês, vai ser marcada por gestos de paz.
“Vai encontrar-se com as autoridades civis, tradicionais, e vai ouvir testemunhos dos sofrimentos da população. Vai deixar a sua mensagem e todos vão fazer juntos um gesto em favor da paz”, disse D. José Avelino Bettencourt à Agência Ecclesia.
O responsável diplomático, nascido nos Açores, na ilha de São Jorge, sublinha que na passagem pelos dois países africanos, Leão XIV “vai visitar uma prisão, vai visitar uma zona de guerra, vai visitar hospitais, vai visitar asilos de crianças órfãs”.
“Ele dá-se completamente, a 100%, para servir e está disposto a sacrificar-se”, indica o entrevistado, reconhecendo a exigência da terceira viagem internacional do atual pontificado, entre 13 e 23 de abril, que passa ainda pela Argélia e por Angola.
O roteiro oficial inclui a cidade de Bamenda, nos Camarões, um território anglófono marcado por confrontos armados há quase uma década.
“Eu recordo-me muito bem da primeira vez que fui lá, debaixo de muita proteção militar: ouviam-se os disparos toda a noite. Ao longo destes anos que tenho estado aqui, já lá fui doze vezes e nota-se uma diferença, está muito mais calmo e há uma mudança de tom, mais disponibilidade para o diálogo”, relata.
O representante diplomático enquadrou o início da deslocação internacional no contexto da ligação histórica e espiritual do atual Papa ao continente africano.
“O Papa Leão XIV é membro da Ordem Religiosa Agostiniana. Santo Agostinho é um dos grandes santos da Igreja, escritores de todo o tempo, e nasceu na África. E, assim, ele sente-se um pouco como um filho espiritual de Santo Agostinho, e um filho espiritual na África”, precisa.
A presença em países caracterizados por uma forte diversidade cultural – apenas os Camarões contabilizam mais de 250 etnias – expõe também a vitalidade institucional das comunidades católicas locais.
“A Igreja não está sentada com os braços cruzados; está proativa e está muito ativa no terreno. Nós aqui, em todos estes países, temos escolas, temos hospitais, temos centros de assistência social”, relata.
Segundo o núncio apostólico, o povo camaronês tem-se reunido em vigílias de oração para preparar a chegada do pontífice, registando-se já no terreno a presença do “papamóvel” e das delegações preparatórias para as celebrações.
“É uma das primeiras viagens que ele quer fazer, vir aqui à África, para estar com o seu povo e dar-lhe essa mensagem de esperança e de caridade”, conclui D. José Avelino Bettencourt.
Papa visita quatro países, incluindo Angola, de 13 a 23 de abril

A terceira viagem internacional do pontífice norte-americano abordará a realidade de um continente atravessado pela violência e pelos fenómenos migratórios.
“É uma viagem pela riqueza deste grande continente, povoado por povos e mundos diferentes”, assinalou o porta-voz do Vaticano.
A etapa em Angola centra-se no valor da juventude e na denúncia das “feridas da corrupção, da exploração e do colonialismo”.
Matteo Bruni sublinhou que a nação da África Austral possui uma forte identidade religiosa, capaz de contrariar a resignação social.
“Um verdadeiro recurso espiritual e uma força de mudança”, indicou.
A conferência de imprensa detalhou o arranque do roteiro na Argélia, um país inédito no trajeto das viagens pontifícias, marcado pela herança de Santo Agostinho, fundador da ordem religiosa de que o atual Papa (Robert Francis Prevost) foi responsável mundial.
O porta-voz do Vaticano assinalou que o contexto geográfico argelino permitirá a Leão XIV abordar a crise humanitária no Mediterrâneo e a necessidade de colaboração entre cristãos e muçulmanos.
A intervenção papal focará também o “risco de exploração dos recursos por parte de outros, sejam pessoas ou organizações”.
Nos Camarões, o Papa vai encontrar um país afetado pelos extremismos religiosos e por conflitos regionais no norte e sudoeste.
O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé referiu que as tensões locais serão contrabalançadas pelo apoio ao papel das religiões e da sociedade civil, bem como pela defesa da ecologia integral.
“Um país que atravessa provações complexas devido à coexistência de realidades diversas”, explicou.
A passagem pela Guiné Equatorial encerra o roteiro papal, evidenciando o compromisso da Igreja local na construção de uma cultura de paz num território rico em matérias-primas e diversidade cultural.
A comitiva do Vaticano integra vários cardeais, incluindo os africanos Peter Appiah Turkson e Robert Sarah, sem “medidas especiais” de segurança.
Matteo Bruni destacou que a viagem coincide com a evocação do primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, a 21 de abril.
(Com Ecclesia e Vatican News)