Uma assembleia eclesial de ouvidoria aberta à comunidade e uma eucaristia marcaram a reta final desta visita de oito dias

A visita pastoral do bispo de Angra à ouvidoria de Vila Franca do Campo, a primeira capital da ilha de São Miguel, terminou com uma celebração na Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo, marcada pela gratidão, desafios concretos e um forte apelo à unidade, à centralidade de Cristo e ao papel essencial das famílias na vida da Igreja.
Em tom de ação de graças e de apelo ao compromisso, D. Armando Esteves Domingues sublinhou a importância de Cristo como centro da vida eclesial, alertando que “sem Ele a Igreja será apenas uma organização sem futuro”. Agradecendo o acolhimento das comunidades e o trabalho dos diversos ministérios, destacou que ali se encontram “comunidades onde se vê que Cristo é centro da vida de muita gente”, mas é preciso “ultrapassar meras práticas devocionais” e “definir horizontes” que possam ir para além da multiplicidade de eventos.
Num discurso focado na comunhão, o prelado reforçou a necessidade de uma Igreja participativa: “Oxalá que esta Igreja seja a imagem de uma Igreja unida (…) a comunhão constrói-se na diversidade”. Sublinhou ainda que a unidade, sendo dom de Deus, exige esforço humano, sobretudo num contexto em que cada paróquia enfrenta desafios próprios sem perder a sua identidade.
A dimensão interparoquial e sinodal foi outro dos eixos da mensagem. O bispo de Angra, que visitou o concelho de Vila Franca durante uma semana, entre 18 e 26 de abril, valorizou o caminho já feito, afirmando que a visita pastoral “não serve apenas para verificar, mas para construir laços e comunhão”. Nesse sentido, deixou um apelo claro a uma Igreja mais próxima dos que estão afastados: “Não basta multiplicar iniciativas, é preciso discernir (…) passar à outra margem e chegar aos últimos”.
A família surgiu como prioridade central.
“Não é um elemento acessório, é um sujeito essencial da vida da Igreja. Quem dera que todos os movimentos e formas de pastoral tivessem casais”, afirmou exortando à coerência também das famílias.
“Uma família que fala de Deus mas não participa, que fala de Deus mas não reza… não dá exemplo”.
A celebração, já tardia mas muito participada, foi precedida de uma assembleia eclesial de ouvidoria, aberta à comunidade onde foram apresentados os diversos setores pastorais, revelando uma Igreja viva, mas também consciente das suas fragilidades. A catequese, com cerca de 880 crianças, destacou como principal desafio a fraca participação na eucaristia e a dificuldade em envolver jovens e famílias.
“Precisamos de estratégias para motivar”, foi sublinhado.
Na pastoral familiar, reforçou-se a ideia do matrimónio como compromisso de vida e destacou-se a importância dos sacramentos “não apenas como uma festa mas como um vínculo com Deus”. Já os Ministros Extraordinários da Comunhão garantem apoio a doentes, enquanto a Cáritas regista um aumento das necessidades.
A juventude, dinamizada por iniciativas como retiros e projetos comunitários, e o escutismo, com forte presença no concelho, mostram sinais de vitalidade. Ainda assim, a formação surge como necessidade transversal, com a Escola de Formação da Ouvidoria a responder a esse desafio: “Se não conhecemos, não podemos transmitir”.
No final, o bispo de Angra destacou a importância da espiritualidade como prioridade: “Mais espiritualidade e menos religião, mais Evangelho e menos devoção”. Incentivou ainda uma maior proximidade pastoral e deixou um apelo à corresponsabilidade: “Falta chamar… ninguém diz que não”.
A visita pastoral foi amplamente valorizada pelos responsáveis locais. O coordenador do Conselho Pastoral destacou a “proximidade e o sorriso” do bispo de Angra.
“Hoje D. Armando utilizou a palavra maravilha…é, de facto, a palavra que se impõe depois desta semana”, afirmou.
“A nossa ouvidoria está no bom caminho, está enraizada com humildade para reconhecer que há desafios mas estamos disponíveis para os abraçar”, concluiu.
Já o ouvidor, padre José Borges, descreveu o momento como “um tempo de graça”, sublinhando que “unidos somos mais Igreja”.
Também os testemunhos das paróquias revelaram o impacto da presença episcopal, desde o acolhimento caloroso até aos encontros com famílias, jovens e idosos. “Foi sentir o coração dos pastores e perceber que o pastor sentiu o coração do seu povo”, resumiu por seu lado o padre André Resendes, pároco em Água D´Alto e São Pedro.
“Foi, de facto, maravilhoso. Nestes tempos de tanta solidão, de tanto individualismo, de tanta autorreferência, foi um momento de esquecer estas armas e perceber que unidos somos mais igreja, somos mais comunidade”, disse ainda o sacerdote.
O padre Ruben Sousa, pároco em Ponta Garça e Ribeira das Tainhas desde setembro, descreveu a visita pastoral como um momento intenso e profundamente marcante para as duas comunidades. Ao longo de dois dias, o bispo percorreu todas as instituições e impérios, num ritmo exigente, mas sempre próximo das pessoas.
“Foram dias muito intensos, mas em cada lugar o Sr. Bispo teve uma palavra concreta para cada pessoa”, destacou.
A visita ficou também marcada por vários momentos de oração e por um contacto direto com a população. Segundo o sacerdote, o bispo privilegiou um “diálogo de proximidade”, interessando-se pela vida das pessoas e pelas suas famílias.
“Perguntava como estavam, escutava, e isso fez com que as pessoas de Ponta Garça gostassem verdadeiramente de conhecer o seu pastor”, referiu.
Para o padre Ruben Sousa a experiência teve igualmente um impacto pessoal.
“Ajudou-me a aproximar-me mais do Sr. Bispo e até a corrigir um pouco a minha visão”, confessou, sublinhando a dimensão espiritual e humana do prelado: “É um bispo cheio do Espírito Santo, de grande proximidade, que tocou todos e também a mim”.
A visita pastoral a Vila Franca do Campo foi a primeira visita em São Miguel. Até ao final deste ano, estão ainda previstas mais duas visitas às ouvidorias de Fenais da Vera Cruz e Capelas.








