Na apresentação do Relatório sobre Liberdade Religiosa 2025,da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), Catarina Bettencourt Martins revelou que 62 países apresentam graves restrições a este direito fundamental, afetando cerca de 5,4 mil milhões de pessoas
A liberdade religiosa está sob crescente ameaça em várias regiões do mundo e os sinais para o futuro são preocupantes. O alerta foi deixado por D. Armando Esteves Domingues, Bispo de Angra, na apresentação do Relatório sobre Liberdade Religiosa 2025, promovido pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que decorreu no centro Pastoral Pio XII, em Ponta Delgada pela primeira vez.
“Quando é a liberdade que está em causa, é o homem e a sua dignidade que estão em perigo”, afirmou o prelado, considerando que o século XXI poderá tornar-se “pior do que todos os outros” em matéria de liberdade religiosa.
O bispo de Angra denunciou também formas contemporâneas de intolerância, apontando perseguições dirigidas a migrantes e mulheres, muitas vezes visíveis nas redes sociais e protagonizadas por grupos políticos extremistas, que radicalizam o discurso e polarizam posições. Para o bispo de Angra, “se não há liberdade religiosa, também não haverá outras liberdades”.
O prelado apelou ainda ao reforço da missão evangelizadora da Igreja, alertando para uma crise missionária e para regiões cada vez mais descristianizadas.
“Neste momento da história temos de dar muita força aos missionários”, afirmou.
Segundo os dados apresentados por Catarina Bettencourt Martins, responsável da Fundação AIS, o relatório analisa a situação em 196 países e conclui que 62 não garantem plenamente a liberdade religiosa. Destes, 24 são classificados como países de perseguição religiosa e 38 como países de discriminação religiosa.
No total, cerca de 5,4 mil milhões de pessoas vivem em contextos onde este direito é limitado ou negado. Nos países classificados como países onde há perseguição religiosa, os crentes podem ser presos, torturados ou até mortos por causa da sua fé. Já nos países onde existe discriminação, persistem restrições ao culto, desigualdade de expressão e marginalização social.
Catarina Bettencourt Martins sublinhou que, nos 25 anos de publicação deste relatório, a liberdade religiosa continua a revelar-se “um indicador decisivo da paz e da verdadeira liberdade”.
“Quando não há liberdade religiosa, não há paz”, afirmou.
Entre os principais fatores identificados no agravamento da situação estão o autoritarismo político, o extremismo religioso organizado, o nacionalismo étnico-religioso e até o crime organizado em Estados fragilizados, que persegue comunidades por motivos de fé.
A responsável destacou ainda o uso crescente da inteligência artificial e de novas tecnologias para vigiar, controlar ou limitar comunidades religiosas, bem como o aumento do antissemitismo e dos crimes de ódio.
O relatório refere também que 46 países apresentam perspetivas negativas e preocupantes quanto à evolução futura da liberdade religiosa.
Durante a sessão, a Fundação AIS recordou igualmente a sua missão humanitária, especialmente intensificada desde 2014 no Iraque, quando centenas de milhares de cristãos fugiram da violência do Daesh. O apoio prolongou-se depois à Síria e a diversos países africanos marcados por conflitos e perseguição.
A instituição, que celebra 80 anos em 2026, mantém uma missão assente em três pilares: informar, partilhar e orar.
Paulo Aido, da Fundação, destacou sobretudo a intervenção em África.
A Fundação AIS está a promover uma petição internacional em defesa da liberdade religiosa, convidando os cidadãos a assiná-la, divulgá-la e a rezar pelas vítimas de perseguição em todo o mundo. Em Ponta Delgada os participantes foram sensíveis ao apelo e muitos assinaram a petição.
Esta iniciativa, organizada em parceria com a nova Comissão Diocesana para o Ecumenismo e Diálogo Interreligioso, integrada no Instituto Católico de Cultura, contou ainda com a intervenção de Francisco Almeida Medeiros, coordenador, que lembrou a importância do tema e enquadrou a iniciativa no âmbito dos trabalhos do próprio grupo dado que este diálogo é fundamental para o desenvolvimento social.
Foi ainda aproveitada a oportunidade para apresentar sumariamente uma biografia do padroeiro da diocese- o beato João Batista Machado- um dos mártires do Japão, que morreu degolado no século XVII no Japão por ser cristão. A referência ao açoriano que saiu da ilha Terceira para estudar em Coimbra, depois Macau e missionou no Japão, foi apresentada pelo cónego Adriano Borges que sublinhou o contributo da diocese insular para as missões e lamentou o facto de nos tempos mais recentes, sobretudo depois da década de 80, as missões não estejam entre as prioridades do clero diocesano.


