O Espírito Santo é um dos elementos mais estruturante da identidade açoriana

Entre o Domingo de Pentecostes e a celebração da Santíssima Trindade, dali a uma semana, os Açores transformam-se num imenso palco de fé, tradição e convívio popular. De uma ponta à outra do arquipélago, há impérios enfeitados, coroações, bodos e funções que mobilizam milhares de pessoas e fazem desta uma das maiores manifestações religiosas e culturais da região.
Não há ilha que fique indiferente ao culto do Divino Espírito Santo. Considerada a mais importante tradição religiosa açoriana, esta celebração ultrapassa fronteiras geográficas e sociais, reunindo comunidades inteiras em torno de um sentimento comum de partilha e devoção. Nas ruas, multiplicam-se as bandeiras vermelhas, as iluminações e os preparativos que anunciam dias de festa intensa.
Em cada freguesia vive-se um ambiente especial. As Irmandades, com as suas comissões e os seus ajudantes, organizam mesas para as refeições comunitárias, preparam as coroas, os bodos e os cortejos, enquanto as famílias abrem portas para receber amigos e visitantes. Ao cair da noite, as ruas enchem-se de pessoas que caminham em direção ao império, acompanhando as cerimónias que dão vida a uma tradição secular.
Particularmente nas ilhas do grupo central, o fim de semana de Pentecostes é vivido com grande entusiasmo. As coroações sucedem-se, levando à rua crianças, mordomos e irmandades, num momento carregado de simbolismo e emoção. Mais do que uma manifestação religiosa, trata-se de uma expressão identitária profundamente enraizada na alma açoriana.
Apesar da profunda dimensão religiosa das Festas do Divino Espírito Santo, as irmandades açorianas distinguem-se pela sua autonomia em relação à estrutura formal da Igreja, sendo organizadas e conduzidas essencialmente pelo povo. E, quando a hierarquia, pela mão do então bispo de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho, quis intervir procurando “purificar” estas irmandades registou-se uma polémica que obrigou o prelado a recuar. Ao longo do tempo, a hierarquia religiosa nem sempre viu com bons olhos esse culto popular em que apenas se pedia ao sacerdote que “dissesse a missa” e benzesse as rosquilhas, o pão ou as vésperas, o pão e a carne dos pobres. Sem intermediários, a festa era da Irmandade, a partilha estendia-se a todos, homens, mulheres, crianças, naturais e estranhos, sem dependência de raça ou de estatuto social.
É precisamente nessa independência que reside uma das maiores riquezas desta tradição secular: a capacidade das comunidades se mobilizarem espontaneamente em torno de valores como a partilha, a fraternidade e a corresponsabilidade laical. Inspiradas pelo culto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, as irmandades vivem da ação do Espírito Santo entendido, sobretudo na ilha Terceira, como “o Senhor Espírito Santo”, figura central de uma devoção popular marcada pela entrega absoluta, “a quem nada se nega”. Mais do que uma prática religiosa, estas festas tornam-se um exemplo vivo de fraternidade universal, onde todos têm lugar à mesa e onde a solidariedade se transforma em compromisso comunitário, ensinando que a fé também pode ser construída a partir do povo, para o povo e com o povo.
São mais de 300 as irmandades registadas diocese de Angra, espalhadas pelas nove ilhas, unidos pela mesma essência: celebrar o Espírito Santo através da solidariedade, da fraternidade e da partilha. É também por isso que muitos chamam a estas festas “a festa do povo”.

Dia dos Açores
A ligação entre o Dia dos Açores e as Festas do Divino Espírito Santo ficou oficialmente consagrada a 30 de abril de 1980, quando a Assembleia Legislativa Regional decidiu instituir a segunda-feira do Espírito Santo – celebrada no dia seguinte ao Domingo de Pentecostes – como feriado regional e Dia da Região Autónoma dos Açores. A escolha da data não foi apenas simbólica: representou o reconhecimento político e institucional de uma das tradições mais profundas da identidade açoriana. Ao associar o Dia dos Açores ao culto do Divino Espírito Santo, o parlamento açoriano sublinhou os valores históricos de solidariedade, igualdade, fraternidade e participação comunitária que estas festas transportam há séculos e que continuam a marcar a vivência cultural e social do arquipélago.
Este ano, a celebração do Dia dos Açores será no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. A Assembleia e o Governo regionais assinalarão também os 50 anos da autonomia político administrativa, consagrada na constituição de 1976 e, pela primeira vez, estará na cerimónia uma mulher como Representante da Republica para os Açores.
Na cerimónia, entre as 25 personalidades e entidades distinguidas, estarão um sacerdote a título póstumo, o padre Edmundo Pacheco e a religiosa, a irmã Maria Amélia Costa, da Congregação das irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a única congregação religiosa que, no passado recente, teve uma província na diocese de Angra.

Os dias do bodo
É na ilha Terceira que o Espírito Santo tem uma vida indelével. Aqui, destaca-se o maior número de impérios numa só ilha: cerca de 70, muitos deles coloridos. As festividades mais emblemáticas incluem os tradicionais carros de bois adornados (como na freguesia de Vila Nova) e o grandioso bodo na Praia da Vitória.
Na ilha Terceira, as festas têm uma força “muito original” e são vividas sobretudo na zona do Ramo Grande, ouvidoria da Praia, onde a economia continua a ser predominantemente agrária, sendo bastante conhecidos, por exemplo, os impérios da Vila Nova e das Lajes pelo número de pessoas envolvidas.
A capacidade de inserção numa cultura agrária explica, de resto, a sua permanência tão viva nos Açores: a valorização da terra de onde vem o trigo e o milho a partir dos quais se faz o pão, o vinho e a carne, aspetos nos quais se materializam os dons do Espirito Santo.
A peculiaridade principal deste culto no arquipélago é ser popular e desenvolver-se sob a forma de império, com uma forte carga profética e política, sem qualquer pretensão de imitação de papéis ou destituição de poderes.
À volta dos Impérios desenvolvem-se durante vários dias as festividades do Espírito Santo, imbuídas de um ideal caritativo e compostas por um conjunto de cerimónias religiosas e profanas: a “coroação”, o desfile de cortejos e o bodo de pão e de carne.
Durante cada semana das festividades veneram-se as insígnias do Divino na casa do Imperador e reza-se o terço à noite diante da coroa e da bandeira. Na sexta-feira, os bois são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”. Posteriormente, sacrificam-se os animais necessários para o bodo que será oferecido no domingo aos convidados, retalha-se a carne para a sopa, o cozido e a alcatra do jantar e para as pensões a distribuir pelos pobres da freguesia. No sábado faz-se a distribuição de esmolas, compostas de carne, pão e vinho, benzidas pelo sacerdote.
No domingo de manhã realiza-se a primeira procissão, encabeçada pela bandeira do Espírito Santo. Na cerimónia da “coroação”, dentro da igreja, o padre toma o cetro, dá-o a beijar a quem coroa e entrega-lho, e depois faz o mesmo com a coroa, colocando-a sobre a sua cabeça; asperge o Imperador, incensa-o e entoa-se o “Veni Creator Espiritus”. Depois da coroação, a Coroa e a Bandeira vão em procissão até ao Império, de onde saem à noite para outra casa.
É também no domingo que se realiza o bodo ou a “função” para o qual todos são convidados, ricos e pobres, habitantes ou forasteiros. A ementa da “função” é composta pela sopa do Espírito Santo, alcatra, pão, armazenados nos Impérios ou nas despensas, pela massa sovada.
Na ilha Terceira, os impérios prosseguem durante o verão, até ao Império de São Carlos, em setembro e o culto do Espírito Santo está documentado desde 1492, data em que já se fazia o Império e se distribuía o bodo, no dia de Pentecostes, à porta de uma capela pertencente ao hospital do Espírito Santo.
A festa constava da missa do Espírito Santo, “coroação” e bodo e, se algum irmão da confraria “tomasse o império” sem ter meios para o desenvolver seria ajudado pelos restantes membros da irmandade.
Quando se instituíram as Santas Casas da Misericórdia na ilha Terceira, a de Angra, em 1495, e depois a da Praia, em 1498, instalam-se nos Impérios do Espírito Santo, acabando por se tornar as responsáveis pela organização dos bodos no dia de Pentecostes, facto que não afetou a criação de irmandades em todas as freguesias destes dois concelhos.
Na ilha Terceira, nestas duas semanas, centenas de quilos de açucar são transformados em bonecos para ofertas nos Impérios do Espírito Santo.
O alfenim entregue nos Impérios do Espírito Santo é depois arrematado e o dinheiro reverte a favor das festas, nas quais, para além da animação e da religiosidade, são distribuídos pão, carne e vinho.
O alfenim (palavra que vem do árabe “al-fenid” e quer dizer aquilo que é branco, alvo) é feito apenas de açúcar, água e vinagre, mas se passar do ponto transforma-se em rebuçado. Moldá-lo em imagens fiéis à realidade exige uma técnica que não está ao alcance de todos. O preparado leva cerca de 20 a 25 minutos ao lume e quando atinge o ponto é vertido para uma bacia untada com manteiga, que está dentro de outra com água fria, para ir arrefecendo a massa.
A imagem mais comum do alfenim é a pomba branca, que simboliza o Espírito Santo, mas as promessas estão muitas vezes associadas a problemas de saúde, por isso, em momento de aflição, são encomendadas peças de partes do corpo, como pés, pernas, mãos, braços, peitos, gargantas e cabeças de alfenim. Os pedidos mais frequentes são as meninas e os meninos de corpo inteiro, que se adequam a diferentes maleitas e a outro tipo de promessas.

Ilha do Pico: a singularidade do império da Silveira
A festa do Espírito Santo começa este sábado no Pico com o tradicional Império da Silveira, no concelho das Lajes, um dos mais característicos da ilha montanha pela “sua singularidade” de preservar o sábado como dia grande da festa e a presença de foliões.
O voto que deu origem a este Império data de 1720, num sábado, altura em que depois de uma forte crise sísmica se criou o mistério da Silveira. Três anos depois foi erguido o Império que se assume hoje como um dos mais antigos da Ilha do Pico na cronologia do povoamento desta ilha. Todos os anos este Império organiza a sua festa cativando a presença de muitos forasteiros.
Outra particularidade deste Império são as sopas, para as quais toda a população é convidada e participa cantando dando vivas e louvores ao Senhor Espírito Santo. O cortejo sai de casa do mordomo com as várias insígnias (estandartes e coroas), acompanhadas pelos foliões e pela filarmónica, rumo à igreja paroquial onde é celebrada a Santa Missa e a coroação.
Segue-se o almoço de sopas do Espírito Santo, onde se sentam à mesma mesa da partilha os irmãos das irmandades com as suas famílias e todos aqueles que são convidados para a “função” ou “gasto de coroa”, como se diz em algumas freguesias da ilha montanha. Todos são convidados.
A meio da tarde realiza-se a procissão de recolha das rosquilhas ou vésperas que as senhoras trazem à cabeça em açafates ornamentados com artísticas toalhas com os bordados da ilha e com as flores da época. Iguarias que depois, são distribuídas por todos os que passam na festa, que só encerra com o foguete que assinala que toda a gente já foi contemplada com uma rosquilha ou um pão.
Uma das particularidades desta ilha, à semelhança das do Faial e de São Jorge (as chamadas ilhas do triângulo) são os estandartes em forma retangular e enrolados numa vara que mantém nos seus quatro cantos uma “flor do lis” bordada, referencia explicita aos primeiros povoadores destas ilhas, os flamengos vindos da Flandres.
Ao todo no Pico existem 45 Impérios, tantos quantas as irmandades criadas na ilha. Estima-se que anualmente sejam oferecidas neste fim de semana cerca de 20 mil refeições. Este enorme número de refeições, tendo em conta o número de habitantes da ilha que já não chega a 15 mil habitantes, equivale a mais de 10 toneladas de carne e mais de 20 mil pães.
Os cortejos processionais e os arraiais são abrilhantados pelas 13 filarmónicas da ilha e ainda pelos grupos de foliões.
Nestas 45 festas além das tradicionais sopas do Espírito Santo serão servidas carne cozida e assada, massa sovada e arroz doce.
Em cada arraial são distribuídas as rosquilhas, vésperas ou pão a todos aqueles que passam pela freguesia.
De referir que as rosquilhas- “reliques”- e o pão são ofertados nos impérios do lado sul da ilha (desde a Madalena até à Calheta de Nesquim) e os bolos de véspera nos impérios do norte da ilha (desde as Bandeiras à Calheta de Nesquim). A Paróquia da Calheta de Nesquim é a única que oferece rosquilhas e bolos de vésperas.
O maior império da ilha (e provavelmente dos Açores) é o da Terça-feira do Espírito Santo, na Vila da Madalena, em que são distribuídas cerca de 5 mil rosquilhas, muitas delas partilhadas com forasteiros que acorrem à ilha montanha provenientes do Faial e de São Jorge.
Além destas 45 irmandades, que realizam as suas festas nestes dias, há outras seis que promovem a sua festividade noutras alturas do ano, com coroações, sopas e distribuição de rosquilhas.
As Irmandades geralmente possuem o seu Império próprio com traça arquitetónica tradicional onde são depositadas as Insígnias: Coroa, Cetro, Estandarte, Varas, fitas, emblemas. Faz parte do seu património uma casa de arrumos com mesas, bancos, louças, talheres, aventais e gravatas. Possui ainda uma cozinha ampla e bem apetrechada que permite a cozedura da carne, a confeção da carne assada e do arroz-doce, conhecido popularmente por doce dos pobres.
A primeira preocupação do Mordomo e da sua equipa consiste sempre em “arrolar o pão”: percorrer a freguesia e perguntar em todas as casas se dão ou não pão (rosquilhas) ou se cumprem a sua obrigação de irmão com dinheiro.
No domingo anterior à Festa do Espírito Santo as Insígnias do Espírito Santo saem do Império para a casa do Mordomo. É lá que se juntam para cantar o terço em louvor do Espírito Santo, bem como as preces tradicionais. A Coroa com o Cetro fica depositada em altar próprio, ornamentado com flores vermelhas e brancas. O Estandarte vermelho, encimado com a pomba branca é, normalmente, posto em saliência numa das janelas da casa para assinalar que aquela é a casa do Mordomo ou Imperador. Também o portão é enfeitado com um arco de verdura para solenizar a entrada das Insígnias. No fim do terço o Cetro é beijado por todos os presentes e há sempre um brinde com a massa “sovada” e vinho típico.
Mesmo em épocas de grande carência nunca se deixou de levantar o Império, a Festa mais desejada de todo o ano, em toda a ilha. “Dar pão” é como que uma assinatura de irmão.

Ilha do Faial
Na ilha do Faial, segundo o inventário cultural oficial, existem 44 impérios do Divino Espírito Santo. Estes edifícios e os seus festejos estão intimamente ligados às respetivas irmandades, tendo as suas direções a responsabilidade de organizar a festividade anual.
O Império de Reconhecimento e Beneficência, vulgo Império dos Nobres ou da Câmara, é o mais emblemático e antigo da ilha, datado de 1672, fundado por ocasião da erupção vulcânica que rebentou de 23 para 24 de abril de 1672, entre as freguesias do Capelo e Praia do Norte, em que a Câmara da Horta convocou as três classes em que então se dividia a população, que por unanimidade aceitaram “que em dia do Senhor Espírito Santo, todos os anos e enquanto o mundo durar, sair em procissão e celebrar Missa, fazendo-se gastos e despesas à conta dela, em ação de graças pelos benefícios recebidos de não ser maior o dano que o dito fogo podia fazer”. Anualmente em Domingo do Espírito Santo a edilidade faialense cumpre o voto com procissão, Missa e coroação na Igreja Matriz e a distribuição de pão de massa sovada junto do império. Na sexta-feira anterior, depois de benzidas, são distribuídas esmolas de massa, pão e carne a dez famílias carenciadas por cada uma das treze freguesias do concelho, assim como a instituições de beneficência.
Ao contrário de outras ilhas do Grupo Central (como o Pico ou São Jorge), no Faial o modelo de festejos assume algumas especificidades próprias, sendo a ilha com uma variante organizacional bastante singular no arquipélago, com vários impérios em cada freguesia, como por exemplo nas freguesias vizinhas dos Flamengos e da Feteira em que existem sete impérios em cada uma. Ao contrário de outras ilhas onde outrora predominavam estruturas efémeras ou de madeira, muitos impérios faialenses foram pioneiros na construção sólida de pedra e cal, exemplo disso é o Império dos Nobres começado a construir em 1759 e concluído no ano seguinte. Um dos maiores impérios da ilha é o do Salão, que serviu de centro de culto e de polo agregador para a comunidade paroquial após a freguesia ter sofrido danos significativos durante o violento terramoto de 9 de julho de 1998.
No Faial as filarmónicas e os grupos de foliões assumem singular importância na animação dos cortejos e coroações.
De referir a particularidade dos estandartes do Espírito Santo, que acompanham as coroas de prata, que além dos símbolos do Espírito Santo bordados no tecido, como a coroa, a pomba ou as línguas de fogo, contêm ainda a flor do lis, símbolo dos flamengos, que grande influência tiveram no povoamento da ilha.

Ilha de São Jorge: Os carros das bandeiras
Em São Jorge, a organização do culto do Divino Espírito Santo faz-se através das Irmandades, como nas outras ilhas. Alguns exemplos de lugares que mantêm estas tradições muito vivas são o Topo e a zona da Beira. Uma das maiores marcas identitárias de São Jorge é a atuação dos seus grupos de foliões, com destaque para localidades como os Rosais, a Urzelina e a Beira. Diferente de outras ilhas onde a comissão (mordomia) assume uma gestão coletiva, em São Jorge a figura do Imperador é a peça central. O Imperador, ou mordomo, como é chamado no Topo – frequentemente um lavrador ou alguém respeitado localmente – financia grande parte da festa e recebe as insígnias sagradas (a coroa, o cetro e a bandeira) na sua própria casa. É ali criado um altar doméstico ornamentado com flores onde vizinhos e familiares se reúnem diariamente para rezar o terço. Além das habituais Sopas do Espírito Santo confecionadas com carne de gado oferecida e engordada por lavradores locais, destaca-se a tradição do Bodo de Leite (frequentemente na segunda e na terça feira de Pentecostes). O leite fresco e os bolos de véspera (massa sovada) são benzidos e distribuídos gratuitamente à população.
O Ritual do “Bando” e os “Carros das Bandeiras” são dois elementos típicos de São Jorge, que no sábado percorrem as freguesias onde esta prática é tradição, para recolher donativos. Também em São Jorge há a tradição única dos Cavaleiros da Beira e do Topo, que vestidos com trajes especiais ricamente decorados com flores naturais, saem acompanhados pelos foliões. Eles transportam e distribuem pelas crianças da comunidade bens como a massa sovada, o bolo e o queijo de São Jorge. Hoje, distribuem-se guloseimas também.

Ilha Graciosa
Na ilha Graciosa existem 16 impérios e irmandades ativos dedicados ao culto do Divino Espírito Santo. Cada um destes locais funciona como o coração das festividades da sua respetiva localidade ou paróquia.
O Império de São Mateus (na Praia) quebra a regra geral açoriana de separação física entre a Igreja e os impérios. É o único exemplar no arquipélago integrado na própria estrutura do templo, equilibrando a fachada do lado oposto à sacristia e ostentando janelas em ogiva.
É muito comum em várias irmandades graciosenses a existência de bodos organizados especificamente por faixas etárias e géneros, existindo o “Bodo dos Rapazes” e o “Bodo das Raparigas”. O Culto no Império das Fontes: esta localidade celebra um bodo altamente característico no Domingo de Pentecostes, conhecido popularmente como o Bodo das Sete Marias, em honra a uma tradição antiga de promessas locais.

Ilha de Santa Maria
Em Santa Maria, o culto ao Divino Espírito Santo preserva algumas das manifestações mais singulares e antigas de todo o arquipélago açoriano, mantendo viva uma relação profundamente comunitária com a devoção à terceira pessoa da Santíssima Trindade.
É sobretudo na freguesia de Santo Espírito que a celebração ganha contornos únicos. Ali sobrevivem os antigos “teatros” e “copeiras”, estruturas tradicionais onde decorrem os preparativos das festas e onde se guardam os utensílios usados na confeção das refeições comunitárias. No Teatro são realizadas as cerimónias de investidura dos ajudantes pelo Imperador. É lá que o Trinchante (um dos ajudantes) corta o Pão da Mesa, a Rosca, que é distribuído a todos os que comeram as sopas e o pão leve (tipo pão de ló que geralmente é dado a crianças). A Copeira é onde são confecionadas (na cozinha da mesma e em fogo de lenha) e comidas as sopas, na sala e onde são guardadas as louças (antigamente louça de barro de Vila Franca). No Império servem-se sopas de pão “de casa” molhado na água de cozer a carne maioritariamente, cebola e repolho, sal, em lume de lenha, temperadas com endro. Quando toda a “mesa” já comeu, o chefe dos ajudantes grita “Viva o Espírito Santo” a que toda a mesa responde “VIVÓÓÓ” e saem para dar lugar a outros.
Ao contrário do que acontece noutras ilhas, em Santa Maria os impérios funcionam frequentemente por promessas individuais de qualquer pessoa que assume voluntariamente o compromisso de organizar a festa e custear as sopas, perpetuando uma tradição marcada pela fé pessoal e pelo espírito de entrega ao “Senhor Espírito Santo”.
Toda a atividade é orientada pela folia. Este fim-de-semana realiza-se o Império de Ilha. Por decisão da Ouvidoria, desde alguns anos para cá, quando não há qualquer promessa para o dia de Pentecostes, a Ouvidoria em colaboração com todas as Paróquias faz o Império. Para todos os impérios há a recolha de esmolas porta a porta.

Ilha das Flores:
Com 28 irmandades espalhadas pela ilha, as celebrações mantêm tradições antigas que fazem do Espírito Santo muito mais do que uma manifestação religiosa: um verdadeiro elemento de identidade social e cultural florentina. Aqui, multiplicam-se os cortejos e o Jantar de Espírito Santo, refeições abertas à população, reforça laços de vizinhança e solidariedade. Entre as tradições mais emblemáticas destacam-se os “pesos” ou “enfiadas”, porções de alimentos que são distribuídas pelas famílias, hoje quase exclusivamente compostas por carne e que mobilizam as localidades envolvendo músicos, foliões, mordomos e crianças. O bodo mantém-se como símbolo maior da igualdade e da fraternidade, numa ilha onde o Espírito Santo continua a ser celebrado como expressão de união entre todos.
Também as chamadas “Casas do Espírito Santo”, existentes em várias freguesias, assumem uma importância singular. Mais do que simples espaços de apoio às festas, funcionam como centros vivos da convivência comunitária, locais onde se organizam refeições, se acolhem visitantes e se preservam tradições transmitidas entre gerações.

Ilha do Corvo
As festas em honra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade na mais pequena ilha do arquipélago centram-se no Império do Espírito Santo, localizado no Largo do Outeiro, um edifício histórico datado de 1871. No fim de semana de Pentecostes, realiza-se o momento religioso principal com a tradicional coroação, onde crianças são simbolicamente coroadas. É servida, também, a tradicional refeição gratuita à comunidade, com as típicas sopas do Espírito Santo, massa sovada e arroz doce. Por volta do segundo fim de semana de julho, realiza-se uma segunda celebração, mais profana, que inclui arraiais, folclore e atracções musicais, pensada para o regresso de emigrantes corvinos.

Ilha de São Miguel
Na maior ilha do arquipélago as celebrações, ocorrem desde o domingo da Páscoa até julho e são marcadas por majestosas coroações e pelo enfeite cuidado das ruas, unindo milhares de locais e visitantes.
Em todas as localidades é festejado o Divino Espirito Santo, com destaque para as festas da Maia, de Rabo de Peixe, da zona da Bretanha e também na zona das Feteiras e é no Pentecostes e no domingo da Trindade que se realizam as maiores festividades.