
O Papa denunciou hoje, no sul de Itália, os “interesses obscuros” e a criminalidade que considerou responsável pela poluição ambiental na região, apelando a uma resistência cívica contra os crimes ecológicos.
“A cultura do privilégio, da arrogância e da irresponsabilidade, que tanto prejudicou esta terra, bem como muitas outras regiões de Itália e do mundo, deve ser erradicada”, advertiu Leão XIV, na Catedral de Santa Maria Assunta em Acerra, num encontro com bispos, membros do clero e institutos religiosos e familiares das vítimas da poluição ambiental.
Acerra, situada na ‘Terra dei Fuochi’, uma zona entre Nápoles e Caserta, na Campânia, é conhecida pela eliminação ilegal de resíduos tóxicos e pela queima de plástico e materiais industriais.
A intervenção pontifícia evocou todos os mortos pela poluição ambiental, “provocada por indivíduos e organizações sem escrúpulos, que durante muito tempo puderam agir impunemente”.
O Papa desafiou as comunidades locais a assumir uma atitude de “resistência” para transformar o cenário de devastação social e sanitária originado na década de 1980.
“Sede testemunhas desta resistência obstinada que se transforma em renascimento, onde quer que o Evangelho ilumine e transforme a vida”, instou Leão XIV.
“O Senhor coloca-nos novas questões sobre a forma como vivemos nos nossos bairros, sobre a nossa vontade de trabalhar em conjunto como indivíduos e instituições, sobre a nossa paixão pela educação, sobre a honestidade no nosso trabalho, sobre a distribuição equitativa do poder e da riqueza, sobre o respeito pelas pessoas e por todas as criaturas.”
O primeiro encontro da visita sublinhou o impacto do despejo de resíduos tóxicos por indústrias e máfias organizadas, assinalando a responsabilidade de vários setores da sociedade perante esta situação.
“Por lucro, e com o silêncio culpado de muitos, transformaram-na num mercado”, alertou o bispo diocesano, D. Antonio Di Donna, durante a saudação de boas-vindas ao Papa.
O encontro teve a presença de familiares de vítimas de doenças oncológicas associadas à contaminação ilícita dos solos e das águas subterrâneas.
“Gerai uma nova vida transmitindo aos vossos filhos e filhas, netos e vizinhos este sentido de responsabilidade que tantas vezes tem faltado até agora. Deixai morrer o ressentimento, sede os primeiros a praticar a justiça que exigis, testemunhai a vida e ensinai as pessoas a cuidar”, apelou o pontífice.
A comunidade médica local liga o desastre ecológico ao aumento drástico das taxas de mortalidade por cancro.
“O clamor da criação e dos pobres entre vós tem sido ouvido com mais intensidade devido a uma concentração mortal de interesses obscuros e à indiferença pelo bem comum, que envenenaram o ambiente natural e social”, declarou Leão XIV.
O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou o Estado italiano, no início de 2025, pela ausência de medidas judiciais e executivas para travar esta crise.
A deslocação de Leão XIV assinala o 11.º aniversário da encíclica ‘Laudato Si’ e concretiza um desejo antigo do Papa Francisco, impossibilitado de visitar a região por motivos de saúde.
“Hoje, desejamos realizar o seu desejo, reconhecendo o grande dom que a encíclica ‘Laudato Si’ representou para a missão da Igreja nesta terra”, indicou o pontífice.
A 8 de maio, aniversário da sua eleição pontifícia, o atual Papa tinha estado na Campânia, para visitar o Santuário de Pompeia e a cidade de Nápoles
(Com Ecclesia e Vatican News)