Caminhada sinodal da Igreja diocesana é a única possibilidade para responder aos desafios da “mudança de época”. 75 conselheiros, entre membros do Conselho Presbiteral e do Conselho Pastoral Diocesano, de hoje até dia 5, analisam as respostas que a Igreja deve dar depois de uma leitura feita aos sinais dos tempos.

D. João Lavrador afirmou esta noite, na abertura dos trabalhos da primeira assembleia diocesana a reunir em simultâneo os membros dos Conselhos Presbiteral e Pastoral Diocesano, que só uma Igreja “de rosto sinodal” pode responder “ a uma nova cultura e civilização”, pós-pandemia.

“Agora sentimos a ruptura social, a desarticulação das nossas comunidades, o desemprego, a fome e a exclusão. Porém, esta realidade dramática proporcionará um novo rosto da sociedade que só será mais humanizador se tiver o fermento do Evangelho” afirmou o bispo de Angra lembrando que “a nova cultura e a nova civilização estão a reclamar a proposta do Evangelho, que exige um rosto sinodal das nossas comunidades cristãs”.

Entre hoje e segunda-feira, 75 conselheiros debatem a leitura que fizeram dos “sinais dos tempos” no que respeita à cultura atual, à realidade sócio-económica e à situação eclesial dos Açores, nos últimos 11 meses.

“Porque estamos perante realidades novas seja a nível cultural, seja a nível social, seja a nível eclesial, é obrigação da Igreja diocesana, de acordo com o incentivo dado pelo Papa Francisco, congregar todos os baptizados e propor-lhes uma caminhada em conjunto a que chamamos caminhada sinodal” justificou o prelado diocesano respondendo assim a algumas criticas sobre a oportunidade e o modo como esta caminhada sinodal tem decorrido, sobretudo num contexto de tantos constrangimentos como os que foram impostos por esta pandemia, não só na diocese de Angra mas também noutros lugares.

“Permitam-me que vos apele para um verdadeiro espírito de reconhecimento pela graça deste tempo e para o projecto de esperança que os desafios desta época nos lançam”, interpelou sublinhando que mais do que “uma época de mudanças” atualmente o mundo atravessa “uma mudança de época”, numa alusão clara às palavras do Papa Francisco na alocução que proferiu no Natal do ano passado aos cardeais.

D.João Lavrador fala na necessidade de uma “mudança pastoral” que não seja sinónimo “ de uma pastoral relativista” e que responda “a novos mapas e paradigmas” para um novo tempo “que já não é de cristandade” e a fé é “muitas vezes negada, depreciada, marginalizada e ridicularizada”.

São “verdades que incomodam, que conhecemos e sentimos, mas que nem sempre temos em conta na renovação pastoral que se impõe”, afirma o bispo de Angra que além do Papa cita Jose António Pagola, teólogo basco, acompanhando-o na denuncia contra “o ritualismo, o legalismo, a burocracia e o continuar a  seguir, com uma resignação e um tédio cada vez maiores pelos carris habituais da mediocridade”.

O prelado, que nesta intervenção deixou claro que quer “uma Igreja sinodal, em caminho sem protagonismos paralisantes; um laicado de homens e mulheres apaixonados por Cristo, em igualdade de dignidade e responsabilidades, intimamente ligados à Igreja e ao mundo de hoje; um exercício do Magistério que se coloca na escuta da fé do Povo de Deus nas circunstâncias de mudanças históricas”, pediu que cada um dos conselheiros apresentasse ao longo destes dias “ a sua reflexão sem qualquer constrangimentos e com o sentido de estamos a contribuir para o melhor bem na abertura de caminhos de pastoral renovados para a nossa diocese”.

No entanto, advertiu, “depois de feita a análise da realidade a que chamamos sinais dos tempos, teremos de fazer emergir os desafios que nos levam a propor os traços fundamentais do rosto da nossa Igreja para que seja evangelizadora, missionária, em permanente diálogo com o mundo, comunitária e participativa em todos os seus membros, integradora, pobre entre os pobres, que escuta o grito dos que sofrem, promotora da verdadeira e integral ecologia”.

Esta assembleia que decorre no Centro Pastoral Pio XII, em Ponta Delgada, terminará na segunda-feira à hora do almoço. Durante os próximos dias realizar-se-ão trabalhos plenários em que cada um dos conselheiros poderá fazer uma análise aos três temas em discussão.

Ainda antes da ordem do dia, usou da palavra o ouvidor da Praia da Vitória, padre Emanuel Valadão Vaz, que criticamente desafiou a diocese a prosseguir o trabalho de auscultação para além das estruturas da Igreja, alargando-o a grupos da sociedade civil, mais ou menos comprometidos com a Igreja Católica, e por mais tempo, de forma a poder ter um diagnóstico mais fiável da situação sócio-económica e eclesial do arquipélago, ao invés de tomar decisões que possam ser emanadas das estruturas e não correspondam aos anseios das comunidades.

PDF- Discurso abertura da reunião dos Conselhos Presbiteral e Pastoral