Por António Pedro Costa*

Na próxima segunda-feira, dia 20 de junho, segundo o historiador açoriano Urbano Mendonça Dias, perfaz 340 anos que Madre Teresa da Anunciada entrou no Convento da Esperança, no ano de 1682, ocasião festejada com grande solenidade e alegria, considerando aquela freira na sua autobiografia existente no Convento da Esperança que entrara para o paraíso da religião. De seu nome de Teresa de Jesus Maria passaria, desde então, a chamar-se Teresa da Anunciada.

Como se sabe, este ano, terão início a 25 de novembro, as comemorações dos 365 anos do nascimento da freira do Santo Cristo, nascida na Ribeira Seca da Ribeira Grande em 1658, estando a ser preparados diversos eventos comemorativos, que poderão constituir um importante impulso para o tão almejado processo de beatificação de Madre Teresa da Anunciada.

De acordo com o anúncio feito pelo Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, de entre os momentos celebrativos mais importantes, o Santuário está a promover a edição de um novo livro sobre a vida de Teresa da Anunciada, bem como a colocação de uma nova estátua no adro do Convento, sendo depois a atual retirada e colocada no jardim onde aquela clarissa procurava ter momentos de intimidade espiritual, louvando a Deus pelas maravilhas da criação e onde ainda hoje se cultiva com todo o carinho a roseira por ela plantada.

Por outro lado, foi dado ainda público conhecimento que está a ser preparado um vídeo, com a interpretação de talentosos autores açorianos, que representarão o papel de Madre Teresa da Anunciada na propagação do culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, que chegou até nós e à diáspora açoriana com assinalável pujança.

Igualmente, na sua terra natal, será colocado um mural monumental nas paredes exteriores da igreja de S. Pedro da Ribeira Seca onde se retrata Madre Teresa da Anunciada venerando a Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, oferta do graciosense Pe. Norberto da Cunha Pacheco, que foi Pároco naquela freguesia, durante largos anos.

Mas voltando ao referido dia 20 de junho de 1682, tinha Madre Teresa 23 anos, e citando a sua autobiografia, “as religiosas vieram todas à portaria para me receberem. A Madre Abadessa disse-me para que me despedisse de minhas irmãs. Deram-me a imagem do Menino Jesus e entrei para o paraíso da religião em que passei a viver, atribuindo todos estes favores à Majestade Divina conhecendo sempre o meu nada. Levaram-me em procissão da igreja para o coro baixo, enquanto os sinos repicavam tanto os do convento como os da igreja de S. Mateus. Cortaram-me os cabelos. Tirei os brincos que tinha e dei-os à minha irmã Dona Ana porque a mais pobre das minhas irmãs. Quando me vi com o hábito de minha Mãe Santa Clara parecia-me ser um sonho, pois considerava-me indigna de ser sua filha. Minha irmã pediu à Madre Ana da Glória que a deixasse ir à minha cela, desejo que também tinham as outras religiosas, mas a Madre Abadessa interveio dizendo que ficava bem que fosse só com a Medre Glória. Assim fui com essa religiosa e me sujeitei a tudo o que ela me ordenava, não lhe faltava um ponto, ela estimava-me como se fosse coisa sua.

Era tanto o entusiasmo que invadia Teresa da Anunciada por viver no céu e paraíso da religião, que quando andava pelas oficinas e pelos dormitórios (corredores do convento), tudo lhe parecia um sonho.

No entanto, antes de ultrapassar os umbrais do convento, Madre Teresa dá-nos conta como foram os últimos instantes no “mundo”: Veio o Padre vigário da Fajã, à casa onde me encontrava, pedir licença à minha gente para me levar pela mão. Estava ele a falar neste sentido quando chegou a minha irmã Joana, já com tudo pronto. Sem dizer nada, e diante de todas aquelas pessoas, abraçou-me com muitas lágrimas, com tão discreto pranto, com tais exclamações ao céu e tais ternuras, que todos os que ali estavam começaram a chorar. Nos últimos abraços senti o coração tão mortal que nem derramei uma só lágrima. Acabada a despedida chegou a comunidade dos religiosos para me acompanhar, e entoaram logo o Te Deum laudamos com charamelinha e baixão, bem como todos os instrumentos ligeiros com os quais se podia caminhar. Parecia passar-se a música do céu para a terra. Fiquei confusa por ver quanto o Senhor obrava sem achar em mim nada que lhe agradasse, apenas ofensas com as quais O ofendi.

Vim para a igreja e fui recebida com outra música das religiosas. Confessei-me com o Frei Alexandre, religioso franciscano, e a minha irmã Joana, como o Padre Vigário do Oratório. Comungamos as duas pela mão do dito Vigário, mas quando este lhe foi dar a partícula, ela estava tão elevada que não pôde recebê-la, foi necessário que seu pai espiritual a espertasse. Comungou mas depois ficou na mesma até se proceder à minha entrada.

Com o decorrer dos tempos, Madre Teresa passou de forma assídua a conversar com Deus, particularmente através da imagem do Ecce Homo, e tornou-se intercessora dos crentes. Sabe-se que a sua fama de santidade teve início ainda em sua vida e mantém-se, tendo por base a grande fé do povo açoriano e muitas resoluções de problemas pessoais, especialmente de saúde, são entendidas como um verdadeiro sinal de Deus.

As suas relíquias, nomeadamente de pequenos pedaços de tecido cortados, aquando do seu falecimento, foram desde logo veneradas e muito estimadas pelo crentes e ainda hoje as fitas com a medida da altura da Imagem ou uma das flores de pano que adornam o andor na procissão ou relacionados com Teresa da Anunciada, como uma folha ou uma flor da roseira por ela plantada, ou pagela representando-a junto ao altar com a imagem, é a forma encontrada para se pedir a sua intercessão para poder obter de Deus a satisfação dum pedido.

Foi por seu intermédio que a devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres chegou até aos dias de hoje e a festa do Senhor Santo Cristo constitui um dos momentos celebrativos mais fortes da sociedade, sobretudo micaelense e até mesmo da diáspora, como uma afirmação de identidade açoriana.

*António Pedro Costa é o presidente da Fundação Pia Diocesana de Nossa Senhora das Mercês, Calhetas de Rabo de Peixe