A palavra carnaval, associada às festas e manifestações profanas desta época, contém na sua etimologia um sentido particularmente cristão.

Segundo o dicionário etimológico francês Bloch-Watburg, terá surgido no séc. XIII o termo quarnivalle, equivalente a “deixar a carne”.  Deste modo, o carnaval é etimologicamente o início do período que lhe sucede. A prática da quaresma é ainda mais antiga. Já na segunda metade do século II se preparava a Páscoa com jejum. No século IV adoptou-se a estrutura de quarenta dias – quadragésima -, considerada no seu simbolismo bíblico.

Para a Quaresma contribuiu significativamente a disciplina penitencial dos primeiros séculos da Igreja, em ordem à reconciliação dos pecadores, que se realizava na manhã da Quinta-Feira Santa. Com o fim das perseguições e a entrada dos povos bárbaros, aumenta o fluxo de novos convertidos, muito menos preparados. Consequentemente, a disciplina torna-se cada vez mais rígida. A reconciliação penitencial, considerada segunda tábua de salvação depois do batismo, é conferida apenas uma vez na vida, sem possibilidade de repetição, e associada a um grande número de exigências. Denomina-se este processo penitência antiga solene ou canónica.

Aqueles que escolhiam realizar este processo, ou que eram “convidados” a fazê-lo em ordem à reconciliação, entravam na ordem dos penitentes. Trata-se de um estado particular, normalmente integrado por pecadores idólatras, homicidas ou adúlteros. De um modo geral, os pecadores deviam seguir uma vida mortificada com jejuns, esmolas, provas concretas de conversão interior e da virtude da penitência. Entre as diversas formas de mortificação, é especialmente sentida a privação da carne. Durante este período, normalmente de dois anos, o Bispo e toda a comunidade intercediam e choravam pelo pecador. Santo Ambrósio escreve no seu De Paenitentia: “chore por ti a Mãe Igreja, e lave a tua culpa com lágrimas”. Como sinal de dor, os penitentes permanecem de joelhos nos dias de festa e são encarregados de levar os defuntos à Igreja e de lhes dar sepultura. Fazer parte desta ordem, constituía uma oportunidade única e preciosa, que terminava em grande alegria, através da reconciliação operada pelo Bispo. Nesta época, os presbíteros eram apenas colaboradores e preparavam os penitentes.

Passados muitos séculos, sentimos a distância destas vivências, apesar das semelhanças com certas tradições, como as Romarias Quaresmais, ou de certas normas como o jejum e a penitência (muito pouco apreciados). Contudo, fazem-nos interrogar seriamente acerca do sentido da Quaresma e das escolhas que fazemos e da alegria da conversão. Orgulhamo-nos de apresentar uma Igreja comunhão, mas pouco “choramos” pelos nossos pecados e os dos irmãos.

Pe Hélder Miranda Alexandre