Pelo Pe Teodoro Medeiros

Sopra no cinema europeu um novo velho vento. Provavelmente, o melhor é não lhe dar nome mas fazer por respeitá-lo mesmo assim. Trata-se de uma espécie de realismo sóbrio, orgulhoso da facilidade com que expõe personagens “reais”, ambientes e convívios familiares quase banais, quase documentais e irrelevantes. São obras filmadas com planos simples e que dão primazia às personagens e aos seus dilemas.

Sobre este Leviatã do realizador russo Andrey Zvyagintsev que vai ganhando fama, se podem projectar estas luzes e outras mais. Aqui, declara depressa ao que vem; a injustiça de que Volya é vítima, por lhe ser expropriada a sua casa por um preço irrisório, e o processo de luta em tribunal para repor a justiça. Não falta mesmo o advogado que veio de Moscovo e promete, por um qualquer magnífico golpe de asa, restabelecer a verdadeira ordem. Só que há que preservar a alma russa, ou seja, nada corre segundo os planos.

Uma grande virtude surge aos poucos; afinal não há grande luta legal; afinal o problema familiar não é o anunciado (a adolescência); Moscovo é uma miragem; há pessoas chave que se desvanecem; o fácil torna-se difícil e o difícil impossível; nada é previsível e, no fim, o espetador tem de responder a uma ou duas perguntas antes de se levantar da cadeira. Tem de decidir.

Usando um dos chavões de que muita gente gosta, cada personagem tem a sua própria identidade. Cada um se mantém igual a si mesmo. Quando o mundo desaba, os sinais tornam-se manifestos. Ninguém é aqui um mero estereótipo. Nem mesmo o político importante que vai a casa de Volya à noite, completamente embriagado mas ostentando uma supremacia digna de um Don Corleone. Não vai lá fazer nada; vai lá porque pode.

Apesar de tanta introspeção, faz-se valer o peso da natureza neste viver à beiramar mas rodeado de montanhas e precipícios, talvez lembrando que Deus perdoa sempre, os homens algumas vezes e a natureza nunca. Até os monstros marinhos, os leviatãs, fazem repousar as suas carcaças nas praias, em paz, de acordo com o seu destino (como parece dar a entender o padre ortodoxo que recorda a Volya que ele não reza mas Deus domina leviatã… e que Job resignou-se ao seu destino).

Mas a teia não para aí e não perde a sua geometria. Portanto: thriller, documentário, drama social e familiar, corrupção, violência, muitas doses de vodka, crítica social, a mudez de uma aldeia cinzenta, pessoas que vivem enquanto outras sobrevivem por puro canibalismo. A indiferença de tudo isto, o eterno retorno porque tudo o que já foi volta e tudo o que é não é novo. Existem os que perdem e os que ganham; a linha divisória nunca se esbate. Estratos sociais e fronteiras das europas.

Finalmente, as reviravoltas não são forçadas, não são um comprimido contra o aborrecimento; no fim, o embrulho condiz com as loucuras iniciais, com a matéria apresentada naquela primeira meia hora de excitação. E de promessa de guerra que não conhece tréguas.