A caminhada é apenas um incentivo à conversão. Mas é preciso mais, dizem os responsáveis pelos Romeiros de São Miguel, que no próximo sábado iniciam as romarias quaresmais. João Carlos Leite coordena o Movimento desde o inicio do ano pastoral e fala na primeira pessoa.

Portal da Diocese (PD)- Este ano, particularmente, os romeiros têm uma missão especial: orar pelo Santo Padre. Isso dá uma responsabilidade acrescida à Romaria?

João Carlos Leite (JCL)- Não, porque sempre rezamos pelo romano pontífice, mas sabendo que este Papa nos pede orações sentimos o apelo de durante a quaresma poder ter em atenção as suas intenções e intensificar o seu pedido de rezar pelo seu ministério. Também é uma proposta do nosso bispo diocesano que durante esta Quaresma possamos rezar pelas intenções do Santo Padre.

 

PD- O Movimento Romeiros de São Miguel (MRSM) pediu aos ranchos que rezassem e anotassem o número de orações nesta intenção, para depois fazerem o Ramalhete Espiritual. Qual é o vosso objetivo concretamente?

JCL- O nosso objetivo não é a quantidade de orações, mas sobretudo poder nestes dias levar cada rancho e cada romeiro à unidade na oração. Não é nosso interesse apresentar muitos números, mas que o Santo Padre possa saber que durante esta quaresma um grupo de cristãos peregrinos rezou pelas suas intenções.

 

PD- 50 ranchos vão sair à rua e este ano com a particularidade de terem dois ranchos da diáspora. Como é a convivência entre todos?

JCL- A convivência é de mútua responsabilidade, uma vez que, os nossos irmãos vindo da diáspora acolhem as orientações da Diocese e também possuem a sua liberdade como comunidade de Igreja.

 

PD- Há algum tipo de acolhimento especial a estes irmãos?

JCL- Acolhemos com naturalidade reconhecendo a sua capacidade de inculturação e dedicação em manter a nossa identidade religiosa, todavia abertos ao diálogo e à ajuda mútua.

 

PD- As romarias quaresmais, neste formato, são muito características de São Miguel. A Graciosa começou também a fazê-las e agora na Terceira também já há romeiros, pelo menos o Rancho da Conceição. Como é que se articula tudo isto, de uma forma diocesana?

JCL- O nosso movimento é aprovado pelo Bispo Diocesano como “Movimento de Romeiros de S. Miguel” , por isso, a nossa responsabilidade está em coordenar as romarias de S. Miguel. Até este momento não nos foi indicado a coordenação nas outras ilhas.

 

PD-  Que alertas deixa para as Romarias deste ano?

JCL- O maior alerta que faço a todos os romeiros é que todos possam dar testemunho de mudança de vida, a romaria é uma caminhada exterior, mas é também interior. Alerto à coerência de vida e à diferença na fé. Sinalizo ao sentido de abnegação, que evita todo o tipo de excesso, no que diz respeito a bebidas, comidas e visitas. Relevamos, ainda, a importância de visitar o maior número de Igrejas e da boa convivência entre todos.

 

PD- Sendo um ano de crise, difícil para as famílias, o que poderemos esperar das romarias quer do ponto de vista de quem vai quer do ponto de vista de quem acolhe?

JCL- Constatamos que muitas famílias passam por grandes dificuldades, e o que se pode esperar das romarias, é que não seja uma sobrecarga para aqueles que irão participar bem como para aqueles que acolhem, em virtude de providenciar o normal durante a caminhada e evitando gastos extraordinários. As romarias sempre foram sinal de desprendimento como valor próprio.

 

PD- Ao todo quantos homens estarão na estrada até ao fim da Quaresma?

JCL- Perspetiva-se que durante este tempo irão percorrer os caminhos em S. Miguel entre 2000 a 2500 peregrinos.

 

PD- Os romeiros estão nas primeiras “páginas” da atualidade. O facto de no vosso encontro ter sido anunciado pelo Senhor D. António que iria enviar uma missiva ao Papa Francisco sobre o vosso movimento, agora a questão do Ramalhete Espiritual… esta visibilidade extraordinária dos Romeiros faz-vos correr alguns riscos do ponto de vista daquilo que é essencial?

JCL- A nossa prioridade é que cada romeiro possa fazer uma vivência com Deus. Para nós o essencial é a Evangelização destes peregrinos e das suas comunidades, através do nosso carisma. Recebemos essa informação com muita alegria, porque acreditamos que isso não será motivo de riscos, mas motivo de melhoria daquilo que nos é essencial.

 

PD- Na Mensagem para a Quaresma o Senhor Bispo pedia uma verdadeira conversão da alma e do espírito. Alguns padres lamentam que muitos Romeiros só o sejam na preparação e na Quaresma. Sente isso? Que é preciso que esta conversão aconteça e se prolongue por todo o ano… por toda a vida?

JCL- Confirmo este sentimento. Infelizmente noto que estas situações são transversais em toda a Igreja, sobretudo na nossa Europa. A conversão acontece e celebra-se na Igreja, mas é uma graça de Deus fruto, também, da relação intima e pessoal entre cada membro e Deus. Os movimentos não convertem ninguém, mas proporcionam uma abertura ao Amor de Deus. Neste sentido apostaremos na formação, no acompanhamento aos ranchos com maior necessidade de apoio, tanto logístico como espiritual, procurando vivenciar a maior unidade.

 

PD- O que é que se pode fazer para evitar que a caminhada seja só isso e não a tal conversão plena?

JCL- A caminhada é um incentivo à conversão e a uma vivência pessoal e viva com Cristo e com a Igreja, mas somos um movimento, uma estrutura que poderá dar resposta concreta à inserção dos peregrinos na vida quotidiana da Igreja. Como movimento, e não simplesmente como grupo de peregrinos, poderemos capacitar os peregrinos para uma vida cristã mais comprometida.

 

PD- Também é Romeiro. O que é que leva uma pessoa a entregar-se a este caminho de conversão?

JCL- Uma pessoa poderá participar por curiosidade, inculturação e por promessa pessoal. A minha inserção foi por inculturação, nasceu uma vontade para fazer a experiência. A partir desta experiência surge uma necessidade, de um desejo maior de conhecer-se melhor a si, Jesus e a Sua Igreja.

 

PD- Pessoal e coletivamente, como é que gostava de acabar esta “romaria”?

JCL- Espero encher-me da presença de Deus, da alegria de ser cristão e de revigorar a minha fé para que seja um melhor homem, cristão e cidadão. Quero sentir a minha alegria de ser discípulo e testemunho de Jesus Ressuscitado, para que nesta Páscoa possa renovar o meu compromisso de ser cristão.