Por Carmo Rodeia

O Papa Francisco voltou a surpreender-nos esta semana. Nomeou o Pe. Tolentino Mendonça como responsável pela Biblioteca e Arquivo do Vaticano, atribuindo-lhe o título de arcebispo. Já no dia 20 de maio nos tinha surpreendido com a elevação do bispo de Leiria Fátima, D. António Marto a Cardeal.

Se calhar o verbo está mal empregue. Lendo nas entrelinhas a atuação do Papa Francisco, a escolha só causa surpresa a quem anda distraído, pois as recentes nomeações assentam num pressuposto que começa a ser evidente: o Papa quer garantir que todos aqueles que estão na Cúria e os que contarão para a eleição do seu sucessor sejam em número suficiente para que as reformas que quer fazer, e se calhar não consegue , porque o tempo e os homens não permitem, sigam em frente.

À boa maneira jesuíta, o Santo Padre, impõe-nos uma lógica que nos vira do avesso e coloca os vários organismos da igreja de pernas para o ar, tendo sempre presente uma ideia muito precisa de que as reformas, para serem consequentes e producentes, não podem ser impostas de cima para baixo. Têm de ter rostos que as implementem e que sejam, de alguma forma, os seus protagonistas.

Foi o que aconteceu com a escolha de D. António Marto para cardeal, o título mais importante, atribuído a quem o Papa quer ter por perto como especial conselheiro. E voltou a acontecer esta semana com esta boa notícia.

O novo arcebispo português, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; foi ainda diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal. É, sem sombra de dúvida o teólogo português, que com mais profundidade promove um diálogo efetivo entre a cultura e o Cristianismo.

Este fim de semana tive oportunidade de o entrevistar na sequência da participação no Simpósio Teológico-Pastoral, organizado pelo Santuário de Fátima e no qual ele falou sobre a pastoral do cuidado, tão cara aos santuários e tão necessária nos dias que correm.

Na sua magnifica conferência referiu-se às necessidades dos Santuários assumirem cada vez mais a missão de desenvolver uma ação pastoral assente numa “teologia da fragilidade”, porque quem a eles peregrina está de uma forma ou de outra dilacerado pela vida, pelo seu ritmo e pelas suas circunstâncias. E sublinhou como Fátima pode ser o lugar da reconstrução da nossa humanidade.

Uma vez mais só se surpreendeu quem não conhece o Pe. Tolentino Mendonça.

Há muito que o aprecio. Aliás cito-o abundantemente nos meus Entrelinhas. Tantas vezes, que até sou criticada por isso e já me disseram se não tinha mais ninguém para citar…

O Pe. Tolentino Mendonça é um pensador, é um poeta e um escutador.

Há dias na sua crónica semanal na Visão, António Lobo Antunes, que eu também aprecio sobremaneira, escrevia a propósito do seu amigo Tolentino: a bondade de um homem é mais importante do que a sua inteligência. As duas juntas fazem um homem inteiro, e neste caso ainda se acrescenta uma cultura e um talento poético extraordinários. Da poesia à prosa semanal, em jeito de crónica jornalística, todos os géneros que escreve são um convite permanente a que nós saiamos de nós próprios em busca do outro, qualquer que ele seja.

Fiquei contente, muito contente. Além de ser uma escolha acertada tenho a certeza de que no futuro terá um papel relevante.

A igreja portuguesa tem de estar satisfeita. No espaço de dois meses e pouco foi feito um novo cardeal, nomeado um núncio português, de origem açoriana, e atribuída a direção da Biblioteca e Arquivo do Vaticano a outro português. As escolhas são pessoais e por mérito dos escolhidos, mas como portuguesa não posso esconder o meu entusiasmo por ver três portugueses mais próximos do Papa. Oxalá o ajudem  a fazer da igreja o hospital de campanha que ele tanto deseja e do qual tantos de nós precisam.