Pelo padre Hélder Miranda Alexandre

Não é indiferente ver alguém que caminha com os pés no chão. Pode significar nudez e despojamento, mas também segurança, ou um simples retornar à nudez do berço. Na minha infância distraía-me a observar alguns veneráveis da freguesia com pés calejados, nus, feridos, mas firmes no chão. Chovesse ou não, estavam bem assim. Não sei bem se o faziam por pobreza, se por costume…

Outra coisa é descalçar na fé. Impressiona-me ver aquelas e aqueles que o fazem por promessa, com grande sacrifício pessoal, banhados com o esforço e umas lágrimas envergonhadas. Não os critico. Sei que Jesus não quer o sofrimento, mas só Ele sabe o que vai no coração de cada um. Normalmente são fiéis pouco conformes à instituição eclesial, porventura afastados da prática dominical. São almas simples e tímidas, que resolvem prolongar o seu próprio caminho sofrido, com a esperança que o Senhor olhe para a sua história. Prostram-se caminhando e não querem ser advertidos. São Zaqueus escondidos que querem ver Jesus à sua maneira, e fogem das multidões, apesar do percurso ser circundado por muitos. Sozinhos na turba… apenas desejam o fim do sofrimento, por meio da divina redenção.

Conta a lenda que Santo Adalberto, antes de subir à cátedra de Bispo de Praga, a meados do século IX, se terá descalçado diante da catedral e depois se terá aproximado do altar de pés descalços. Afinal também os grandes se descalçam. Descalçar é sentir a nudez, arriscar a ferir os pés, sentir a necessidade do Outro. Como Moisés diante da sarça ardente, ao retirar as sandálias, reconheceu por direito a superioridade do Deus de seus antepassados. O pé é a parte do corpo que está mais intimamente relacionada com a terra. Está associada não tanto à estabilidade quanto ao movimento. Pés descalços, por tradição, indicam humildade e símbolo de lamentação. Por isso, a ligação dos pés à terra é vista não só como lamúria, mas sinal de reverência e adoração. O pé descalço é, possivelmente, a forma mais antiga de materializar o respeito, a submissão, a obediência notória. Este é o elo com Deus, provavelmente o primeiro sinal da dependência do homem com um ser divino.

Que fez Jesus com os seus pés? Basta uma leitura atenta: calejou-os, cobriu-os com o pó da terra, por meio das caminhadas intermináveis, ao encontro dos pobres, dos pecadores, dos doentes, das multidões famintas. E com eles carregou a cruz e os pregaram. Mas aos coxos curou-os e aos seus lavou-os! E isso quer dizer tudo. Quebra a forma de pensar o relacionamento com Deus como submissão!

Os sofrimentos dos caminhantes descalços são lavados pelo Mestre. Ele envolve-se com a poeira do caminhar e lava-a, desde que deixemos que Ele o faça. Por isso, o Senhor Santo Cristo é tão eloquente. As suas chagas são as nossas e o seu olhar não é indiferente, mas fala-lhe os pés! Ah, afinal os seus são os nossos como aquele crucificado sem mãos, descoberto por entre as cinzas de uma catedral destruída na segunda guerra mundial.

Resta-nos uma tarefa: deixar que Ele nos lave os pés para assim lavarmos os dos outros, porque o caminho descalço não é um fim, mas apenas peregrinação…