Pelo Pe. Hélder Miranda Alexandre

No dia 8 de Dezembro de 2016, a Congregação para o Clero publicou uma nova Ratio Fundamentalis Institutionis SacerdotalisO dom da vocação presbiteral, um documento base e de alcance universal para a formação nos Seminários. Pretendeu-se substituir a Ratio de 1985, actualizando-a em ordem a uma realidade muito complexa e cada vez mais fluida na qual se insere a formação de um jovem padre. Após esta, cada Conferência Episcopal deverá proceder à elaboração de uma Ratio Nationalis.

Durante os dias 4 a 7 de Outubro realizou-se em Roma o Congresso Internacional acerca desta mesma Ratio, no qual tive o privilégio de participar juntamente com outros 5 reitores portugueses e mais de 250 formadores de todas partes do mundo sob a responsabilidade da Congregação do Clero. Aceno apenas a algumas preocupações e problemáticas desta complexidade, sabendo que há muito mais para dizer e questionar.

Pode-se correr o risco de pensar que estas diretrizes são apenas direcionadas para as comunidades formadoras dos Seminários, o que é um erro. A problemática é vasta e deve envolver todos os fiéis. A Ratio apresenta uma distinção que quebra este modo de pensar. Refere-se à formação inicial (tempo do Seminário) e à formação permanente do clero (após a ordenação presbiteral), como um todo. Deste modo, toda a Igreja Particular e Universal é responsável por esta formação, nomeadamente famílias, paróquias, párocos, os formadores do Seminário, comunidades religiosas, e de um modo muito especial, o Bispo Diocesano. O Seminário não pode nem tem capacidade para conferir toda a formação e nenhum jovem sacerdote sai do Seminário “prontinho” para responder a todas os desafios que a pastoral coloca. Apenas está preparado para iniciar uma missão, que exige uma abertura contínua à sua própria formação.

Este processo tão complexo e desafiante, tem de ser uno, envolvendo o jovem em todos os momentos do seu crescimento e amadurecimento, integral, pois parte da sua dimensão humana, para se aprofundar nas dimensões espiritual e intelectual, e culminar na formação pastoral, profundamente inter relacionadas, comunitária, pois o jovem cresce com outros jovens, com os seus formadores, e com toda a riqueza de uma Igreja Diocesana, aprendendo a viver autenticamente como Igreja, e missionária, imitando o Bom Pastor que vai ao encontro das suas ovelhas. A Ratio valoriza especialmente o período propedêutico, que deve ser de pelo menos um ano, e que tem sido fruto de uma experiência universal muito rica. Segue-se o período do discipulado, ou da formação filosófica, e depois o período da configuração a Cristo, ou da formação teológica. O percurso culmina na formação pastoral ou de síntese vocacional. Em nenhum destes períodos se deve passar automaticamente para o seguinte. A avaliação de cada seminarista em cada etapa pode mesmo originar a revisão ou o prolongamento da sua formação.

Toda a comunidade de um Seminário aprende a fazer um caminho na docibilitas, através de uma permeabilidade fundada no princípio “aprender a aprender”. Só na capacidade de se reconhecer o que é necessário mudar para crescer, se faz um amadurecimento autêntico e honesto. Aquele que pensa que já sabe tudo e que pode ser ordenado quanto antes sem mais exigências entra num movimento circular que não faz crescer e por isso deve interromper a formação.

A identificação com Cristo Pastor e o apelo do Povo de Deus, que se deve amar e servir constituem a verdadeira razão de ser padre. Por isso, na audiência final, o Papa Francisco interpelou muito seriamente: “Que padre desejo ser? Um “padre de salão, tranquilo e colocado, ou então um discípulo missionário a quem arde o coração pelo Mestre e pelo Povo de Deus? Um tépido que prefere o quieto viver ou um profeta que acorda nos corações do homem o desejo de Deus?”

Como é difícil e apaixonante este caminho! Cada vez mais a realidade interpela-nos a uma revisão de processos!