Por Renato Moura

Há uma dezena de anos que Kofi Annan, então Secretário-geral das Nações Unidas, afirmou “Em todos os países as pessoas gostam de desporto. Os seus valores são universais. É uma linguagem mundial, capaz de erguer uma ponte entre classes sociais, capaz de atenuar as divisões religiosas e culturais. Constitui um instrumento poderoso para favorecer a compreensão do outro, a tolerância e a paz”.

São enormes os benefícios do desporto, seja para o desenvolvimento físico, psíquico e social. Através dele se podem criar e acrescentar valores como sejam os do respeito, da lealdade, da amizade, da renúncia, da confiança, do empenho, da obediência, da cooperação, da justiça. A prática desportiva ensina a superar obstáculos, a manter a serenidade, a trabalhar em equipa, a ser fiel aos compromissos, a lidar com as derrotas, a ser humilde nos triunfos, simpático com os vencidos.

A longa envolvência no futebol amador, sob diversas formas, permitiu-me observar de perto e vivenciar estes valores e benefícios. A existência de clubes que viviam apenas, ou quase exclusivamente, dos recursos criados com o esforço dos dirigentes, sócios e jogadores e alguns auxílios das comunidades, criava uma paixão saudável e a virtude do “amor à camisola”. Os campos enchiam-se de público vibrante.

Seguiu-se: tentação de subida a escalões superiores; profissionalização; orçamentos com gastos astronómicos; incapacidade de angariação de rendimentos em localidades sem tecido económico capaz de os gerar; apelo aos poderes públicos; excessivo relaxamento de critérios para concessão de apoios; perda de responsabilidade de gestão; recurso ao endividamento. Final: falência, que se não ocorreu, acontecerá mais cedo ou mais tarde.

Nem muitos dos grandes clubes nacionais parecem ser bom exemplo de gestão. Como também mostram ser péssimo exemplo da prática das virtudes desportivas. Os clubes mais parecem inimigos de guerra do que adversários desportivos e se é errado um treinador se enfeitar, ainda é pior humilhar. Vendem-se homens, agentes enriquecem. Inflamam as claques, os adeptos ferrenhos agridem-se, os génios recebem milhões e são hoje endeusados para amanhã serem assobiados, os treinadores antes efusivamente aplaudidos veem depois os lenços brancos. Nos programas de comentário desportivo, alegados especialistas, uns sem deixarem que outros falem sob um ruído ensurdecedor de interrupções e até insultos, destroem árbitros por erro e por suspeição, elevam e enterram treinadores e dirigentes.

Desporto: Quo vadis?