Por Carmo Rodeia

Os escaparates das livrarias vão receber esta quarta feira, dia 15, um novo livro assinado em co-autoria pelo papa emérito Bento XVI e pelo cardeal Robert Sarah, prefeito da congregação para o Culto Divino e os Sacramentos, sobre a questão do celibato dos sacerdotes.

Na obra, chamada “Das Profundezas dos Nossos Corações”, que o jornal francês Le Fígaro antecipou no fim de semana, citando algumas passagens, os dois defendem a manutenção do celibato obrigatório para os sacerdotes, algo “indispensável” para que o caminho dos padres “na direção de Deus permaneça o fundamento” das suas vidas.

No livro, Bento XVI e Robert Sarah defendem que “é urgente, necessário, que todos, bispos, sacerdotes e leigos, redescubram um olhar de fé na Igreja e no celibato sacerdotal que protege o seu mistério”. Na introdução e na conclusão, escritas a quatro mãos, os dois autores contestam mesmo o que se passou durante o Sínodo de Outubro: “Estes últimos meses, enquanto o mundo ressoava com o alvoroço criado por um estranho sínodo dos média, que se sobrepôs ao sínodo real, nós encontrámo-nos. Trocámos ideias e preocupações. Orámos e meditámos em silêncio. Cada um dos nossos encontros confortou-nos e acalmou-nos mutuamente. As nossas reflexões, realizadas de diferentes modos, levaram-nos a trocar cartas. A semelhança das nossas preocupações e a convergência das nossas conclusões levaram-nos a decidir colocar o fruto do nosso trabalho e da nossa amizade espiritual à disposição de todos os fiéis como Santo Agostinho”, alegam citando o santo de Hípona: “Silere non possum! Não posso ficar calado!”. O livro possui ainda dois escritos, um assinado por Ratzinger e outro por Sarah, onde ambos fundamentam as suas posições.

Em outubro do ano passado, no Sínodo sobre a Amazónia, e na sequência de vários trabalhos preparatórios, bispos católicos pediram a ordenação de homens casados como sacerdotes, uma solução para enfrentar a escassez de clérigos na Amazónia, uma proposta histórica que poderá pôr fim a séculos de tradição católica romana. A maioria dos 180 bispos de nove países da Amazónia pediu também ao Vaticano para reabrir um debate sobre a ordenação de mulheres como diáconos, sustentando que “é urgente que a Igreja promova e confira na Amazónia ministérios para homens e mulheres de maneira equitativa”, de acordo com o documento final citado na imprensa.

Dizia poderá porque, em vésperas de ser conhecida a exortação pós-sinodal do Papa Francisco sobre este Sínodo, a verdade é que este livro assume-se como um sério obstáculo à concretização do que foi pedido pelos bispos da Amazónia. Não duvido do discernimento do Papa Francisco mas reconheço que, perante um escrito destes, seja  muito difícil a Francisco enveredar pelo caminho sugerido pelo documento final do Sínodo.

Já não é a primeira vez que Bento XVI revela pouca prudência, logo ele que foi um Papa tão formal e contido nas manifestações públicas. Em 2019, por ocasião da cimeira sobre os abusos sexuais, o antigo prefeito da Doutrina da Fé publicou um texto onde defendia que a crise dos abusos do clero radicava no relativismo dos tempos modernos e na dissolução dos valores, e não nos mecanismos de abuso de poder e autoridade. A carta que escreveu, com cerca de 12 páginas, apresentava-se, no entanto, como uma opinião fundamentada mas que não passava disso. Mas, ao aceitar escrever um livro com o cardeal Sarah, que é membro ativo do governo da Igreja, ocupando um lugar na Cúria, como colaborador direto do Papa Francisco, Bento XVI está a ir bem mais longe, quiçá mesmo a quebrar o voto de silêncio a que se comprometeu quando resignou, o que não deixa de ser muito perturbador.  Por mais que se procure colocar água na fervura e evitar que a divisão entre conservadores e reformistas alimente páginas e páginas de escritos, a verdade é que este livro é um convite às “gordas” dos jornais. Até porque, em bom rigor, conhecendo as limitações físicas de Bento XVI, dificilmente acreditaremos que a pena tenha corrido apenas sobre a sua mão.

Não me pronuncio sobre a substância do livro que não li, nem sobre a questão do celibato obrigatório dos sacerdotes, que me parece que tem de ser discutida de forma séria; prefiro antes sublinhar o oportunismo deste livro para servir os interesses de um grupo sobejamente conhecido, ruidoso e influente, que por mais profissões de fé que faça na observância da fidelidade ao Papa está cada vez mais em rota de colisão com ele. E o que mais dói é ver o aproveitamento que se está a fazer da situação de fragilidade em que se encontra Bento XVI para servir tais propósitos. Tal como se fez com São João Paulo II.

Por estes dias ando a ler Mestre Eckhart e não tenciono alterar o plano. “Nada se parece tanto com Deus como o silêncio”… Esse é o grande caminho do aprofundamento da fé que todos nós precisamos.

P.S – Depois de ter escrito e publicado este Entrelinhas foi noticiado que o Papa Bento XVI pediu que retirassem o seu nome como coautor do livro sobre o celibato que vai ser publicado. Ainda bem! O secretário particular de Bento XVI informou que o Papa emérito não autorizou que o seu nome apareça como coautor do livro ‘Das profundezas dos nossos corações’, do cardeal Robert Sarah, que vai ser publicado esta quarta-feira. O secretário particular de Bento XVI e prefeito da Casa Pontifícia contextualizou que o Papa emérito “sabia” que o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé), estava a preparar um livro e “tinha enviado um pequeno texto seu sobre o sacerdócio, autorizando-o a usá-lo como o desejasse”. “Mas ele [Bento XVI] não tinha aprovado nenhum projeto para um livro assinado conjuntamente nem tinha visto e autorizado a capa. Foi um mal-entendido, sem questionar a boa-fé do cardeal Sarah”, desenvolveu D. Georg Ganswein, numa declaração enviada às agências Kna e Ansa, divulga o ‘Vatican News’. A versão não coincide com a do cardeal. Tudo isto teria sido evitado se todos cumprissem os votos a que se propuseram.

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