Reitor do Seminário de Angra fala sobre a instituição no arranque de mais uma Semana dos Seminários

O seminário de Angra celebra 153 anos, no dia 9 de novembro. Em plena Semana dos Seminários, que decorre entre 8 e 15 de novembro, centrada na Misericórdia, o Sítio Igreja Açores ouviu o Reitor, Pe Helder Miranda Alexandre.

Nesta entrevista o responsável aborda o problema das vocações, que não se resolve com a atribuição de um titulo académico, “embora seja uma injustiça” não ser possivel para já; da importância do Seminário como “Coração da Diocese”, num espaço onde a geografia e natalidade impõem constrangimentos e “dificuldades em concretizar alguns objetivos”; das desconfianças que alguns ainda têm sobre o trabalho desenvolvido pela instituição- “Ninguém ama aquilo que não conhece”-; da “reabertura” ao 10º ano e da vida na casa… que “é de facto uma experiência de vida. Trata-se de um caminho de felicidade”.

Sítio Igreja Açores- Vamos celebrar mais uma semana dos seminários, logo a seguir à semana diocesana. Se há matéria, antecipadamente, onde se vê uma absoluta sintonia entre os dois prelados- D. António e D. João- é no reconhecimento da importância do Seminário. Naturalmente que isso, como responsável máximo pela instituição, deixa-o satisfeito?!

Pe Hélder Miranda Alexandre– O D. João Lavrador foi reitor do Seminário de Coimbra e o D. António do Seminário de Alfragide. Por isso, sabem muito bem o que é esta realidade, as suas potencialidades e os seus problemas. A familiaridade do D. António e apoio tão forte do D. João entusiasmaram-nos muito, dão-nos confiança. Sinto realmente que não estamos sozinhos. O D. João Lavrador referiu-se aos casos de seminários que fecharam no continente português e as consequências muito negativas dessas decisões. Ele não quer que se repita essa experiência nos Açores. Penso que não poderíamos começar melhor!

Sítio Igreja Aççores- Repete várias vezes que o Seminário é o coração da Diocese. O coração é um órgão vital. Mas precisa da ajuda de outros órgãos igualmente vitais. O que é que está a falhar para que tudo funcione bem?

Pe Hélder Miranda Alexandre- Não se pode dizer que o coração está a falhar, mas que tem dificuldades em concretizar os seus dinamismos e objetivos, que sempre existiram. A nossa Diocese é muito difícil de trabalhar devido à descontinuidade geográfica. Penso que o Seminário ainda não consegue chegar à vivência prática de todas as comunidades da Diocese, nem é reconhecido como coração por uma grande parte, ou porque não é aceite como tal ou porque não se consegue. Por isso, se insiste tanto nessa ideia. Além disso, a coordenação com outros serviços pastorais tem muito a melhorar. O Seminário tem feito um grande esforço por se abrir a todos, mas não podemos fazer tudo. Os novos meios de comunicação tem-nos aproximado mais, mas não basta. Falta mais oração, e temos de acreditar nisso a sério.

Sítio Igreja Açores- Este ano a Mensagem para a Semana dos Seminários está muito centrada na misericórdia, no amor do Pai. Contudo vemos ainda muitas desconfianças, mesmo entre sacerdotes, quanto ao trabalho do Seminário. O que é que falta fazer para garantir uma maior, mais correta e mais profícua relação entre os sacerdotes, as paróquias e as ouvidorias e o Seminário, para que essa relação se traduza em mais frutos para a Casa?

Pe Hélder Miranda Alexandre- Ninguém ama aquilo que não conhece. Existem preconceitos e ideias muito erradas acerca daquilo que é efetivamente o Seminário. O Seminário do meu tempo não é o Seminário de hoje. Posso dizer com toda a convicção que se trabalha aqui muito a sério. São muitas as noites que me sinto esgotado, mas feliz. Tanto os professores como os alunos sentem isso na pele. Mas não se pode exigir que uma comunidade pequena, como a nossa, faça o mesmo que outras do passado. A realidade é outra. Desafio a quem nos critica que nos diga o que está mal. Nem sempre vemos tudo e também precisamos das críticas, desde que tenham fundamento. No entanto, a maledicência não deveria ter lugar na nossa Igreja!

As estruturas e os meios de interligação existem. Por exemplo, as ouvidorias têm um papel insubstituível nesta missão. É o que acontece na Semana dos Seminários. Mas o essencial é feito nas escolas, nas catequeses, nos grupos de Jovens, nos grupos de oração, nos vários movimentos paroquiais. Claro que há muito mais a fazer, não se pode baixar os braços.

O grande desafio é alertar a consciência e a vontade dos párocos e agentes de pastoral. É verdade que alguns não manifestam interesse, mas devo dizer que o Seminário sobrevive graças à generosidade e ao trabalho de muitos outros!

Sítio Igreja Açores- No ano passado o senhor bispo e o senhor reitor insistiram muito na ideia de que há ilhas que há anos  não enviam jovens para o Seminário. A baixa taxa de natalidade e o envelhecimento da população não hão de justificar tudo…

Pe Hélder Miranda Alexandre- Evidentemente que a baixa natalidade não justifica tudo, mas ajuda. Há muito a fazer. O que se quer dizer é que existem ouvidorias ou comunidades que simplesmente não correspondem. Mas também existem comunidades e padres que têm feito muito e temos de estar muito gratos ao seu empenho! Posso dizer que às vezes encontramos as surpresas mais agradáveis nos meios mais escondidos ou longínquos.

Sítio Igreja Açores- Uma das medidas que está em curso para ser reativada no próximo ano é a abertura das portas do seminário a alunos que vão iniciar o secundário. Que vantagens é que isso pode trazer e, em concreto, o que esperam alcançar?

Pe Hélder Miranda Alexandre- O Seminário nunca fechou realmente as portas aos alunos do secundário, mas deixou-se de apostar nisso. Presentemente queremos relançar esta abertura com maior empenho. Há muitos jovens que colocam o problema vocacional durante o secundário e que depois esmorecem a ideia, sobretudo quando chega o tempo das matrículas para a Universidade. Penso que isso vai trazer mais alunos ao Seminário e vai permitir um acompanhamento mais cedo do processo vocacional. A experiência de alguns dos que fizeram esse percurso confirma esse propósito. Já nos chegaram respostas positivas.

Sítio Igreja Açores- O problema deste seminário não é muito diferente de outros que inclusive já fecharam e hoje essas dioceses têm problemas sérios de falta de sacerdotes. À partida, pelas afirmações dos prelados, essa é uma questão que não se coloca. Mas também, a possibilidade dos alunos fazer o quarto e o quinto ano fora do seminário, na Católica em Lisboa, com tutoria local, não está descartada?!

Pe Hélder Miranda Alexandre- O problema do reconhecimento curricular através da Católica é complexo. A nível canónico cumprimos todos os requisitos, mas a nível civil é uma questão difícil. Precisamos de mais doutorados e produção científica, mas a maioria dos nossos professores já tem uma infindável lista de compromissos pastorais. E esse não é só um problema dos Açores. Também a faculdade de Teologia da UCP tem lutado muito para se manter aberta.

Por outro lado, se alguns dos alunos frequentarem dois anos no Continente, coloca-se em causa a nossa sobrevivência, mesmo económica. Não é possível, para a nossa Diocese, aguentar duas frentes. Além disso, se o Seminário fechasse iríamos ter consequências muito sérias dessa decisão. Os colegas de grande parte das Dioceses do Interior, afastadas dos centros, louvam a nossa persistência, porque estão a passar por grandes dificuldades no recrutamento de novas vocações.

Apenas como exemplo, posso dizer que em Roma nunca me senti inferior aos colegas do Continente. Pelo contrário! Aprendi muito nesta casa e foi reconhecido o meu valor por Instituições de grande prestígio, como a Gregoriana! E não fui o único. Amo muito esta casa e devo o que sou a esta Instituição. Por vezes somos mesquinhos com os nossos. Não pensemos que indo para a Universidade Católica se resolvem os problemas dos sacerdotes. Isso é mito.

As várias hipóteses estão em cima da mesa. Tudo depende da decisão do novo Bispo.

Sítio Igreja Açores- Se o Seminário desse o titulo académico de licenciatura acredita que isso poderia fazer realmente a diferença no número de alunos?

Pe Hélder Miranda Alexandre- Penso que aumentaria o número de leigos, mas não o de seminaristas. Se assim fosse, já teríamos vários no Continente. Na prática, para a maioria dos casos, a licenciatura não traz grandes benefícios, o que não retira a injustiça da situação. O problema está para quem é professor ou assume responsabilidades civis, mas não para os párocos.

Sítio Igreja Açores- Nesta semana da diocese houve um trabalho no Sitio Igreja Açores com toda a comunidade educativa do Seminário. Todos foram unânimes: o Seminário marca, é exigente do ponto de vista académico e promove valores como a unidade e a fraternidade. Como é que se pode explicar isto às pessoas de forma a que esta opção seja realmente… uma opção?

Pe Hélder Miranda Alexandre- Não se pode explicar. A vivência no Seminário é de facto uma experiência de vida. Trata-se de um caminho de felicidade. Sinto nos seminaristas e nos professores um bom ambiente. Os sorrisos são muito frequentes! Isso quer dizer muito. Sei que não é fácil, mas sentimos e vivemos a realização de um sonho. Aprendo muito com a alegria e entusiasmo dos jovens seminaristas. O dia da sua ordenação tem sido para mim uma vivência forte, que me emociona e fortalece o meu ministério, e penso que de todos os formadores desta Casa.

A exigência faz parte deste processo. Queremos homens bem preparados para os desafios da sociedade. Isso traduz-se nas dimensões académica, espiritual, humana e pastoral. Ainda recentemente, o D. António disse com satisfação que os nossos seminaristas são diferentes, estão muito inseridos no mundo da pastoral e das vivências das comunidades cristãs, até na Obra da Cadeia. Além disso, o agrupamento do CNE do Seminário e os Vicentinos têm realizado um trabalho formidável. É muito frequente encontrarmos pobres à nossa porta. Esta também é a casa dos pobres! Afinal, não é isso que o Senhor Jesus quer? Esse é o Evangelho da Alegria que tentamos viver, apesar das nossas dificuldades.