Pelo padre José Júlio Rocha

No dia 8 de Outubro de 1981, já lá vão trinta e nove anos (misericórdia!), fiz a primeira viagem de avião. Tinha então treze anos e levava por dentro aquele entusiasmo infantil de quem se vai encontrar num mundo totalmente novo. Ia entrar no Seminário Menor de Ponta Delgada, deixando a minha ilha para trás. Fui sozinho e sozinho dei entrada naquele edifício gigante, sem conhecer ninguém.

Ao anoitecer do primeiro dia, as coisas começaram a ficar difíceis. O entusiasmo das novas descobertas deu lugar, rapidamente, ao choque da distância da casa paterna, de onde vinha tudo o que eu era. Tenho a certeza de conhecer todos os sabores da palavra “saudade”.

A casa de meus pais não tinha telefone e, por isso, eles não souberam como tinha chegado, como tinham corrido as coisas, se me tinha adaptado, se estava a gostar. Peguei então numa pasta que meu tio me tinha oferecido, com envelopes, selos, esferográfica e papel de carta, e comecei a escrever: “Saudosa mãe, pai e irmãos…” E falei sobre a imensidão do Seminário, as pessoas novas que tinha conhecido, mas não aguentei sem desabafar a negrura da minha alma. Naquela noite e nas seguintes, sem família e ainda sem amigos, senti pela primeira vez o insustentável peso da solidão, repleta de corredores escuros e frios, salas amplas e impessoais, rapazes às correrias a passar por mim sem me verem, a varanda do salão de estudos, escura depois do jantar, comigo a olhar o último voo da Sata para a Terceira, desejando desabaladamente estar naquele avião de regresso a tudo o que fazia sentido. Tinha treze anos e entrava abruptamente, como num rito de iniciação, no mundo agressivo da vida adulta: desenrasca-te.

Ao terceiro dia já esperava uma carta de volta e olhava ansiosamente para o prefeito que, depois do jantar, entregava as cartas aos rapazes, chamando os sortudos que tinham recebido missiva de casa. Não foi no terceiro, nem no quarto nem no quinto. Foram quinze dias de espera. Nestes 52 anos de vida, acho que nunca desejei uma coisa com tanta ânsia e paixão como a primeira carta de meus pais. Chorava de noite, em silêncio, na camarata, cobertor por cima da cabeça, não fossem os colegas descobrir as minhas lágrimas e chamar-me “maricas” da Terceira.

A carta chegou. Corri, com ela nas mãos, numa ânsia, para as casas de banho, único sítio privado, e, lá dentro, chorei a carta de fio a pavio, três folhas preciosas que falavam também das saudades que havia por lá.

O que é o tempo hoje, se comparado com o da minha infância? Se hoje enviamos uma mensagem e cinco minutos depois não temos resposta, começamos a ficar ansiosos ou aborrecidos. Há um paradigma de vida completamente diverso, separado apenas por quarenta anos. O que mais mudou nesses anos foi a noção do tempo e, consequentemente, o sentido da paciência, da saudade e – porque não? – do amor. Com a tecnologia que temos nas mãos, tornámo-nos infinitamente mais eficazes, rápidos e concretizadores do que éramos há quarenta anos. E não temos tempo. Os dias, as semanas e os meses correm à velocidade do som, nem damos pelo passar dos dias, vivemos na era do imediato, amanhã já é tarde, isto era para ontem. Os nossos sentimentos e paixões esvaem-se em mensagens, conversas diretas em Zoom ou Messenger, são sentimentos e paixões bastantemente “soft”, porque saudade e paciência já não são condimentos essenciais ao amor.

Os nossos avós são o último baluarte de um mundo onde a paciência e a saudade eram mestras da vida. Hoje já não o são. Conseguimos superá-las, vencê-las, neste admirável mundo novo que, tal como no romance de Huxley, é tão artificial que nem nos apercebemos de que estamos a perder o dom precioso da nossa liberdade.

A pandemia é um murro no estômago do mundo. Este ano correu demasiado depressa, com todos os jornais e telejornais a abrirem todos os dias com a mesma notícia. Travámos a fundo, perdemos o fio à meada, depositámos fé na ciência, esperámos.

Não sei se este ano único de 2020 nos terá dado alguma lição sobre a liberdade. O que sei é que a liberdade não se regista na lógica do imediato mas na da paciência. A paciência obriga-nos a pensar, a pensar pela nossa cabeça. Só é livre quem pensa.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio