Por Carmo Rodeia

Julgo que foi num texto de Tolentino de Mendonça, a propósito do silêncio e citando Isaac de Nínive, nos finais do século VII, que li a frase a “palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está para chegar”.

O silêncio é, de facto, um traço comum na tradição religiosa. A bíblia, por exemplo, é pródiga no elogio do silêncio: é bom esperar em silêncio a salvação de Deus, diz-nos o Livro das Lamentações.

Por isso, o silêncio que o Papa fez na visita ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, durante a Jornada Mundial da Juventude, na Polónia, ganha um sentido ímpar na história das três visitas papais, de João Paulo II, Bento XVI e agora de Francisco.

Quando Jesus grita “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste” experimenta-se o mais devastador silêncio que a humanidade conheceu até hoje. Porém, é neste gritado silêncio que reside a revelação salvífica de Deus.

O silêncio ensurdecedor de Francisco não é mais do que um convite ao encontro do ser humano consigo próprio e com os outros, centrando-nos no essencial, desafiando-nos a por de parte uma cultura de slogans ruidosos que nos afastam do essencial.

É uma empreitada difícil, sobretudo numa sociedade marcada pela palavra e pela comunicação. Somos demasiado prolixos e herdeiros de um “analfabetismo do silêncio”, que nos impede de viver em paz, para a paz e na paz.

Os homens trocam o silêncio pela palavra e com ela fazem uma guerra. Foi assim com Hitler, com Estaline, com Hussein, e agora com Assad e Erdogan. Ao contrário do que possamos pensar, os ditadores gostam mais da palavra do que do silêncio. Apenas impõem o silêncio à força para calar os que como eles se atrevem a falar…mas de forma diferente.

Não foi este silêncio que o papa quis mostrar nem é deste silêncio que eu estou a falar, mas de outro. Aquele que nos obriga à escuta, condição essencial para sabermos falar.

Se repararmos, nas nossas relações sociais, é muito mais fácil estarmos em silêncio com os nossos amigos do que com os nossos conhecidos. Com estes estar sem falar é não ter conversa. Por isso falamos do tempo ou de outra vulgaridade para nos mantermos vivos na palavra. Entre amigos o silêncio pode dizer mais que as palavras. Diz pelo menos da cumplicidade entre eles. Quantas vezes ouvimos e dizemos: bastou uma troca de olhares para nos compreendermos.

Com o seu silêncio o Papa Francisco reafirmou a vergonha de todos nós pelo extermínio de um povo; pediu desculpa pela crueldade e pela tirania dos homens e alertou para a necessidade de se começar a construir uma nova humanidade.

“Porventura alguns nos chamarão sonhadores por acreditarmos numa nova humanidade sem ódios nem fronteiras” disse o Papa na homilia da celebração dominical que encerrou a Jornada Mundial da Juventude. Mas quem não sonha com um mundo sem ódio e sem guerra? Com um mundo em que as pessoas não sejam tidas em conta pelo dinheiro e o consequente poder que têm mas por aquilo que são?

“Tu és importante! E Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens: a seus olhos, não vale mesmo nada a roupa que vestes ou o telemóvel que usas; não Lhe importa se andas na moda ou não, importas-Lhe tu. A seus olhos, tu vales; e o teu valor é inestimável”, disse o Papa Francisco.

Que bom sabermos escutar…