Pelo Pe. Hélder Miranda Alexandre

No livro The Hidden Injuries of Class, Jonathan Cobb e Richard Sennett procuram demonstrar que somos nós os únicos responsáveis dos nossos fracassos, apesar de muitas e válidas argumentações contrárias. Se continuamos a ser incultos, pobres ou desempregados, se o nosso casamento corre mal, ou se os nossos projetos se desfazem facilmente, a principal razão é porque não nos esforçamos suficientemente. Tudo se deve à nossa incompetência, indisciplina ou estupidez. Na verdade, os insucessos no trabalho e nos relacionamentos originam frustrações que, se não forem controladas, avolumam-se e chegam a depressões patológicas que derrubam fortemente a personalidade.

Tudo tem de produzir e todos querem mostrar mais e melhor. Aparentemente, isso nada tem de mal. Talvez seja a causa principal do desenvolvimento económico e tecnológico do meio em que crescemos. Donald Trump constitui um dos rostos mais famigerados desta mentalidade, triste fruto da sociedade ocidental. Os títulos dos seus “livros” dizem tudo: How to get rich; Think big; Why we want you to be rich, Great again…” Todos os dias as capas de revistas e as redes sociais invadem-nos com personalidades deste tipo, que muitos mais tentam imitar. Uma verdadeira espiral que parece sugar toda a realidade.

Anunciar a misericórdia num mundo assim não faz sentido. Niestzche – em “Assim falou Zaratrusta” – já o tinha proclamado: “Deus está morto: a sua compaixão pelos homens foi a sua morte”. Com a morte de Deus há lugar para o super-homem e para a sua vontade de poder. Em antítese ao Sermão da Montanha, afirma: “em verdade não amo os misericordiosos”. Nele encontramos Dionísio oposto ao Cristo crucificado. Sendo assim, quem não se rege pelo jogo da sociedade dos fortes, quem põe em discussão este modo de viver é tido, no mínimo, como ingénuo.

Contudo, a história de Cristo vai em sentido contrário, é um fracasso político (mas não um fracasso histórico!). Tudo o que podemos considerar como sucesso não se concretizou. Não fundou um reino messiânico, nem derrubou os poderosos do seu tempo, nem muito menos beliscou o império romano. Acabou numa cruz, o pior patíbulo romano. Em contrapartida, o seu sonho prosperou a partir de um grupo muito frágil e reduzido. Verdadeiramente pobre! Assim ensinou que se devia fazer ao dar-nos o exemplo: “não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio, assumindo a condição de servo” (Filp. 2). Os seus também foram tentados pelos primeiros lugares, discutiam entre si sobre qual deles seria o maior, enquanto Ele lhes anunciava a paixão e morte na cruz. Mas Jesus repreende-os: “quem entre vós quiser ser grande, seja vosso servo” (Mt 20, 26)!

Procurar segui-l`O é olhar para alto (assim se rege a nossa lógica celestial). No entanto, a Boa Nova vai noutro sentido: não ascender, mas descender, esvaziar-se. Henri Nouwen escreveu um pequeno livro – O esvaziamento de Cristo – no qual provoca o seu leitor. Há que descer! “O Evangelho inverte radicalmente os pressupostos da nossa sociedade em movimento ascendente. É um desafio estranho e perturbador. Contudo, só depois de termos olhado atentamente nos olhos dos pobres, dos oprimidos e dos marginais, de termos prestado uma humilde atenção às suas formas de vida, de termos escutado com delicadeza as suas observações e percepções, então talvez tenhamos começado já a vislumbrar a verdade… algures nas profundezas de nós mesmos, podemos até saborear um pouco dessa alegria misteriosa no sorriso daqueles que não têm nada perder” A vida descendente não é aquela que leva ao inferno mas ao Céu.

Na última ceia o Senhor tomou uma toalha, colocou-a à cintura e nunca a tirou. Permanece na eternidade o seu mandato: “como Eu vos fiz, fazei-O vós também”. Simplesmente amar, espiritualmente esvaziar-se!