Primeiro Papa jesuíta vai ao encontro da terra das «reduções», que valeram perseguições à Companhia de Jesus. Na Bolivia pediu desculpa pelo “genocídio” contra os povos indígenas

O Papa Francisco vai encerrar hoje a segunda etapa da sua visita à América Latina, na Bolívia, passando pelo Centro de Reeducação de Palmasola, antes de rumar ao Paraguai.

Trata-se de uma ‘cidade’ de 10 mil metros quadrados, com 5 mil recursos, espalhados por vários pavilhões destinados a vários regimes de reclusão.

Segue-se um encontro com os bispos da Bolívia na igreja paroquial La Santa Cruz e a cerimónia de despedida no aeroporto internacional Viru Viru, às 13h00 locais (18h00 em Lisboa).

Duas horas depois, o Papa vai chegar à capital do Paraguai, Assunção, terceira etapa da viagem à América Latina que se iniciou este domingo, no Equador.

As primeiras horas em solo paraguaio são dedicadas a uma visita de cortesia ao presidente da República e um encontro com as autoridades civis no jardim do Palácio de los López.

O programa inclui a execução de obras musicais do tempo das “reduções” jesuítas, aldeamentos das populações indígenas da América, nos séculos XVI a XVIII, criados por iniciativa dos missionários católicos para defender estas populações dos ataques esclavagistas, para a sua promoção social e a evangelização.

As ‘reduções’ foram particularmente significativas no Paraguai, como recordou São João Paulo II, primeiro Papa a visitar este país, em 1988, considerando-as um sinal de “amor a Cristo e aos indígenas”.

Em muitos casos, estas iniciativas custaram a vida aos missionários e geraram perseguições à Companhia de Jesus (jesuítas), a que pertence Francisco.

Já no sábado, tem lugar uma visita ao Hospital Pediátrico “Niños de Acosta Ñu”, onde o Papa se vai encontrar com o sacerdote português Vítor Oliveira, da Congregação dos Missionários do Espírito Santo, responsável pela paróquia onde se situa este estabelecimento de saúde.

“Para o hospital ‘Niños de Acosta Ñu’ vêm crianças de todo o pais nas condições mais precárias, humildes e difíceis do ponto de vista da saúde. É um exemplo de como o Papa quer estar próximo dos mais pobres, dos mais necessitados”, explica à Agência ECCLESIA o missionário, que vive no Paraguai há 37 anos.

Após esta visita, Francisco vai presidir a uma Missa na praça do santuário mariano de Caacupé; à tarde, o Papa encontra-se com representantes da sociedade civil, incluindo as comunidades indígenas e camponesas, e preside depois à oração de vésperas na Catedral Metropolitana de Assunção.

O último dia da visita ao Paraguai, no domingo, começa numa área pobre, junto da população de Bañado Norte, e a Missa no Campo Grande de Ñu Guazú, com orações em guarani.

Francisco vai depois encontrar-se com os bispos do Paraguai e os jovens, para regressar a Roma, onde deve chegar pelas 13h45 (menos uma em Lisboa) de segunda-feira.

Entretanto, ontem ao final do dia, Francisco encerrou II encontro mundial dos movimentos populares, com mais de 1500 delegados, pedindo fim de sistema «insuportável» que marginaliza ainda mais os excluídos.

 

 

 

 

“A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa, aos famosos ‘3 T’: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles”, proclamou, no centro de congressos ‘Expo Feria’.

Francisco propôs uma “verdadeira” mudança de sistema, começando por “colocar a economia ao serviço dos povos”.

“Digamos ‘Não’ a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata, esta economia exclui, esta economia destrói a Mãe Terra”, exigiu.

A intervenção condenou a imposição de medidas de austeridade que “apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”.

“Nenhum poder efetivo ou constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania”, disse o Papa.

Francisco pediu que “o clamor dos excluídos” seja escutado na América Latina e em toda a terra, deixando de lado um sistema que se tornou global e “e impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza”

Segundo o Papa, o atual sistema económico mundial “continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos” e “atenta contra o projeto de Jesus”.

“Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável”, advertiu, propondo “respostas globais para os problemas locais”, que superam a “tristeza individualista que escraviza”.

O pontífice argentino advoga mudança positiva, uma “redentora”, que coloque a globalização da esperança no lugar da “globalização da exclusão e da indiferença”.

Francisco deixou votos de que o trabalho conjunto entre governos, movimentos sociais e Igreja possa gerar uma “alternativa humana à globalização exclusiva”, que responda às necessidades reais “dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas”.

“A nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”, indicou.

“Digamos Não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata, esta economia exclui, esta economia destrói a Mãe Terra”, afirmou.

O discurso falou ainda da tarefa de unir os povos “no caminho da paz e da justiça”, rejeitando o “colonialismo ideológico”.

“Digamos ‘Não’ às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos ‘Sim’ ao encontro entre povos e culturas”, apelou Francisco.

O Papa reconheceu, a este respeito, que se cometeram “muitos e graves pecados” contra os povos nativos da América, em nome de Deus.

“Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América”, disse, evocando São João Paulo II.

Neste contexto, lembrou os membros da Igreja que, por causa da sua fé, se opuseram a esta lógica da “espada” e lamentou o “genocídio” contra os cristãos do Médio Oriente, nos dias de hoje.