Pelo Pe Teodoro Medeiros*

 

Um filme sobre um julgamento; género com raízes clássicas, mas com diversos exemplos ao longo das décadas. Parece ser um género que nunca fica fora de moda nem nunca se esgota. Porque será? As razões serão várias, mas, vamos lá, qual será a principal? A busca da verdade é personalizada e subjectiva, ou seja, neste rosto, neste homem, neste casal, nós investimos os nossos sentimentos e torcemos por eles.

Esses heróis aos quais oferecemos o nosso coração não são perfeitos; às vezes são assassinos, ou são gente que toda a gente considera assassinos (e só no fim são ilibados, numa grande apoteose final). Outras vezes, o jogo é que não se sabe quem é quem e as pistas são díspares, confundindo o espetador e obrigando-o a escolher o seu herói a partir de factores tão relevantes como a cor dos olhos ou os sapatos que usa. Não podem faltar as revelações chocantes (ah! O herói fez isso? Que mau!), ou, inversamente, o mau da fita fez algo muito meritório: ganhará a sentença?

E como esquecer as testemunhas? Aquela testemunha que começa a pôr os pés pelas mãos e prejudica quem queria ajudar; o especialista que dá o seu veredicto científico e vê a sua credibilidade destruída pelo advogado da outra parte. A paixão dos americanos é a grande revelação ter que ver com abuso de poder por parte de uma organização importante; ele é o exército, ele é o CIA ou o FBI… alguém quebrou as regras porque é assim que o mundo funciona.

Acima de tudo isto paira este filme, Gett, passado em Israel, segundo as regras de Israel. Sem truques de câmara, sem falsos tiques de documentário (os ângulos passam despercebidos, o que pode haver melhor do que isso?), sem histórias românticas suplementares (para queimar tempo e distrair um pouco o público), sem planos de paisagens, sem a introdução tardia de reviravoltas (aquele momento em que os argumentistas dão pancadinhas nas próprias costas). E, já que estamos a ser incisivos, nada de grandes performances, momentos zen em que o actor junta 3 ou 4 tiques para não deixar dúvida de que o óscar lhe pertence.

O Processo de Viviane Ansalem devia ser obrigatório nas escolas, nas aulas de educação sexual. Os adolescentes veriam o que o amor é e em que se torna quando parte. E é esse o grande valor deste filme descomplicado e sublime ao mesmo tempo; não há manipulação, não há matéria excedentária, não há lá nada a fazer de bonito. A autenticidade é tal que as catarses marcam-se desde o primeiro minuto; a pregunta surge, como vão manter este nível durante 2 horas? No fim, parece que foi uma só.

Por aqui passam pessoas (mesmo personagens secundários) que exprimem as suas opiniões, as suas certezas contraditórias, as suas escolhas, os seus hábitos. Conhece-se aqui melhor um personagem (vários) que aparece 5 minutos no ecrã do que qualquer um de entre todos os papéis “sérios” em que o Tom Cruise já participou. Não existem tesouros descobertos à luz do sol.

Um único aviso pode ser necessário; que não se assuma a complacência de “isto é em Israel”, “estes israelitas são muito atrasados”. Não, o tema é dos mais complexos e atuais e o tratamento que recebe aqui é mais do que perfeito. Afinal, quantos anos tem o Moisés de Miguel Ângelo?

Ter-se-á dito demasiado sobre o filme, estragado a experiência a quem o deseja ver? A realidade, como todos sabemos, é que há coisas impossíveis de dizer e este artigo não é excepção.

Já o filme, amigos, é uma história muito diferente.

 

  • O Pe Teodoro Medeiros, que se encontra em Roma, inicia esta semana uma colaboração regular no Sítio Igreja Açores sobre Cinema

 

PS: “Gett, O Processo de Viviane Nasalem” é exibido no Centro Cultural de Angra do Heroísmo no dia 29 de Novembro, às 15:00, no Centro Cultural de Angra. A exibição faz parte do ciclo “Pensar o mundo”, uma parceria do Seminário de Angra com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.