Por Renato Moura

Finalmente elegeu-se o Presidente da República e terminou a campanha eleitoral. Um fartote de discursos, acções, entrevistas, debates; quase tudo vazio e para as agendas.

Conforme a Constituição tratar-se-ia de candidaturas pessoais, mas alguns partidos enfiaram-se até às orelhas, outros pouco. No lavar dos cestos dos resultados, alguns partidarizaram-nos, uns retiraram as mãos, outros tentaram aproveitar-se do que não trabalharam.

Como esperado, ganhou Marcelo Rebelo de Sousa. Inteligentemente geriu o anúncio da candidatura até à destruição da possível concorrência no seu meio-campo. Com a esperteza que o caracteriza, fez umas incursões no terreno alheio, fugiu do que não convinha, serviu mais dos pratos que os clientes das televisões apreciaram ao longo de anos e quando lhe conveio, até temperou mais forte com demagogia, apaladando o populismo que vende e rende.

Evidentemente que Marcelo tem o mérito, a subida e merecida honra de ter sido eleito à primeira volta, numas eleições com dez candidatos. Valerá a pena interpretar:  mais de metade do povo não votou; e o sexto lugar de  Vitorino Silva (Tino de Rans), que nos Açores até foi quinto!

Inegavelmente não faltam a Marcelo a inteligência e as qualidades para poder vir a ser um bom Chefe do Estado, que humanizará o cargo por contraposição a Cavaco. O que obviamente não poderá é manter o estilo do comentador que opinava sobre tudo, torcendo e retorcendo, elevando ou afundado, conforme o tempo e as circunstâncias.

Por mera coincidência, no dia da eleição, um dos textos trazidos na Missa à reflexão, era da primeira epístola de S. Paulo aos Coríntios, ensinando que “todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo” e que “os membros do corpo que parecem os mais fracos são os mais necessários”.

Assim também o Presidente da República é um órgão de soberania importante, mas há outros.  E há os órgãos de governo próprio das regiões autónomas e ainda outros, que apesar de parecerem mais fracos são muito necessários, como é o caso das autarquias locais.

O estilo de intervenção repentista e apaixonada sobre todos os temas e a opinião exuberante, contraditória e por vezes até explosiva do futuro Presidente, necessitam moderação, pois cabendo-lhe exercer os seus poderes todos, a função exige ponderação; e os demais órgãos tem poderes igualmente importantes, que têm de exercer com liberdade e legitimidade.

Também aqui se aplica que todos os órgãos, apesar de numerosos, contribuem para um só Portugal.