Pelo Cónego José Medeiros Constância, assistente diocesano do Serviço Diocesano da Pastoral familiar e laicado.

Estamos no contexto da Semana da Vida , cujo tema este ano é :«Eutanásia: O que está em jogo». É um momento de reflexão, de debate e de compromisso. O dia 15 de Maio – Dia Internacional da Família – terá também, entre nós, a possibilidade de se chamar a atenção para a tarefa da Igreja de hoje de aplicar o Sínodo da família e preparar o dos jovens.

Este tema da Eutanásia apresenta aspectos éticos, jurídicos , sociais etc.É um tema antes de mais da sociedade e de cidadania; embora a nós, que acreditamos e que somos como Cristo pela vida, leva-nos a uma defesa da mesma até ao fim.

Como sou fundamentalmente padre pastor junto do povo e estudioso da pastoral, deixo aqui o meu breve contributo, como modesto pastoralista, sobre o tema Eutanásia, referindo a ciência e a arte que é a Pastoral no cuidado pela vida e pela morte com referências de aplicação aos nossos Açores.

 

1 . Eutanásia : Do tabú da Eutanásia e das teorias àquilo que é a cultura da morte?!

 

É legítimo que possamos tratar este tema de uma maneira tempestiva e intempestiva, porque ele ainda é encarado e envolto, também aqui nos Açores , como tabu que não se destrói e não se encara de frente , sem ou com pouca reflexão; ou então, com teorias mais feitas por aqueles que vivem e têm medo da morte do que por aqueles que estão para morrer e não querem morrer.

Assim, entra-se numa rampa deslizante que na actualidade, muito tocada pela cultura da morte, não cuida muito, para que a pessoa viva o melhor possível até ao fim, mas facilita-se directa ou directamente o suicídio e o homicídio. Este perigo espreita também os Açores como em toda a parte.

 

  1. No Epicentro do debate : A nossa opção pela vida em todo o arco da existência humana

 

Somos a favor de um debate esclarecedor por toda a parte e na sociedade açoriana, mas olhando a pessoa humana no seu todo. Na visão cristã somos pela vida humana no todo da existência da mesma.

No eixo do debate, nota-se muitas confusões e até manifestações de grande insensibilidade perante a morte, com ambiguidades sobre o que se chama o direito de viver e de morrer e com grande falta de vontade e de decisões sobre o caminho das possibilidades paliativas, para quem está no fim da vida.

Somos aqui nos Açores , como em qualquer parte , pela vida desde a vida pré-natal (e é de lamentar o que se dá com o abortar mesmo entre nós!); pela vida nas estradas; pela vida com condições materiais para quem é pobre (e como está a nossa Região em termos se pobrezas e dependências); somos pela vida até à morte natural (e como são ainda incipientes os cuidados paliativos nas nossas ilhas).

Não devemos embarcar nos nossos Açores pelos caminhos desesperantes conexos com as decisões e práticas que podem vir da eutanásia e ter nesta fase de debate «critérios bem definidos para não entrarmos em «terrenos pantanosos».

 

  1. O cuidado pela vida na recta final da mesma e o caminho da morte . Que fazer?

 

Quer queiramos , quer não o nosso corpo está programado para morrer. E ainda que  encaremos a morte fazendo parte integrante da vida, ela não deixa de ser algo de sério e de difícil . Na morte tocamos o âmago da nossa existência e a viagem para a morte é algo que até certo ponto ninguém pode descrever.

A recta final da nossa existência, quando atingida pelas fragilidades físicas e psicológicas próprias,  exige um cuidado pela vida que o próprio doente e/ou idoso terá de assumir juntamente com todos os que erguerão o pálio dos cuidados paliativos.

O deixa-me viver até ao fim, o grito ajuda-me a morrer ou o pedido deixem-me partir deste mundo, trazem consigo desafios ao acompanhamento do doente que terão de ser feitos pelos profissionais de saúde, pelos familiares , pelos assistentes espirituais e outros numa criatividade cientifica e numa dedicação de amor e carinho . Para não falar nos espaços físicos próprios,  onde não sejam suportados  sofrimentos físicos escusados ; e onde por outro lado, se evite a morte provocada.

As comunidades cristãs na Igreja terão de exprimir uma seriedade de acção que ajude os cidadãos e os que são cristãos a viverem com a qualidade necessária e possível até à morte natural.

O acompanhamento e a oração com e pelos moribundos foi sempre uma tradição eclesial que ajudou os cristãos a partirem deste mundo em paz e no Senhor.

A Pastoral nos Açores terá de ser muito no tempo presente e no futuro uma Pastoral do Cuidado pela Vida e pela Morte.