A vida também se faz de pequenas histórias.

Como os grandes discursos de pequenas frases. Apenas a “visão de conjunto” permite uma aproximação mais precisa à realidade.

Não constituiu qualquer surpresa  a nomeação cardinalícia de D. Manuel Clemente. Estava nos livros, como se diz, e só não aconteceu mais cedo–explicam os sábios de cúria –  para não existirem dois cardeais eleitores na mesma diocese.

Mas passemos adiante.

Com a recente nomeação ou criação cardinalícia de D. Manuel Clemente, tocaram-me as campainhas da memória e lembrei-me de ter realizado um programa Oitavo Dia  quando tal nomeação caiu em D. José Policarpo. Eram muitos os ruídos acerca de honras, trajes e privilégios sobre  figura do Cardeal na Igreja. Apesar das limpezas de Paulo VI em matéria de pompa e circunstância ainda ficava na opinião mais laicista  uma longa lista de inutilidades de que se revestia a dignidade cardinalícia. Por isso quis ouvir um historiador rigoroso sobre a matéria. Já o tinha entrevistado nos locais mais incríveis do planeta porque sobre tempo e lugar, na Igreja e no mundo, poucos sabem como ele ler, atravessar e situar o tempo e contextualizar os factos. Telefonei, convidei e fui ao local ouvir quem sabia do assunto. Era o cónego Manuel Clemente professor de história. Ano de 1998.A data da transmissão da entrevista com a duração de cerca de vinte e cinco minutos ocorreu no Oitavo Dia no domingo 1 de Março do longínquo 98, ano da Expo. Manuel Clemente explica de ponta a ponta a história e evolução do cardinalato na Igreja, a sua missão e função, com uma fluidez deslumbrante de referência a pessoas, tempos e lugares. Parecia – digo a posteriori – que tinha lido a carta que o Papa Francisco há pouco dirigiu aos novos Cardeais como que revirando a pirâmide da importância para a converter em serviço. Com um sorriso de simplicidade igual ao que agora esboça quando o colocam na eminência da importância e lhe lançam as questões mais complexas. A imagem filmada em 1998 tem pequenos sinais de desgaste de fita, mas vai ser transmitida na íntegra no dia 15 deste mes de Fevereiro imediatamente a seguir à celebração de Roma que a TVI vai transmitir em direto a partir das 10 horas – 8 dos Açores. E a esta vem juntar-se outra pequena ironia. No documento agora distribuído aos jornalistas na conferência de imprensa do Bispo Auxiliar, alude-se ao significado  da estrela de oito pontas que consta nas “armas” de D. Manuel Clemente. “Essa estrela significa o Oitavo Dia”.

“Finalmente está explicada uma expressão com mais de vinte anos em antena”, escrevi em email amigo ao meu entrevistado preferido, como costumo chamar-lhe. E ele respondeu-me.

A vida também se faz de pequenas histórias.

 

Pe. António Rego