Por Renato Moura

“Sabe uma coisa ótima de estar aqui em Guadalajara há quatro dias? É que não vejo jornais portugueses. Portanto, não sei, não vou comentar o que não conheço”, foram declarações recentes da Ministra da Cultura. Não valerá a pena a nova Ministra corrigir, nem pedir desculpas, pois foi sincera e clara: os jornais são coisas incómodas, para ela a imprensa não é cultura; preferiu meter a cabeça na areia para não ver e assim pensar que as suas opiniões não são escrutinadas.

A imprensa escrita atravessa enormes dificuldades e devemos estar preocupados, pois que uma comunicação social com plena liberdade é essencial para uma democracia sã.

A imprensa florentina foi riquíssima, não só na enorme quantidade de títulos, como na qualidade. Infelizmente as entidades públicas não estão fazendo nada de significativo para a perseverar e colocar à disposição de estudiosos ou simples curiosos.

No dia 7 de Dezembro de 1973, faz hoje precisamente 45 anos, publicou-se nesta Ilha o primeiro número do Jornal “As Flores”. “Podemos e devemos contribuir para o progresso e desenvolvimento” escrevia então Roque de Freitas Moura, o homem que escolheu e dinamizou um grupo que permitiu que voltasse a haver jornal na ilha, depois de um interregno de 19 anos, que se iniciara em 27.11.1954 com o último número de um também “As Flores”. Considerava ele que uma terra sem jornal era uma terra sem voz.

O novo “As Flores” publicou-se durante mais de 37 anos, ultrapassando muito a longevidade de todos os outros e pude comprovar, directamente ao longo de 35 anos (e garantir em 33 deles como director) que foi um meio de comunicação com liberdade, interventivo e corajoso, que sempre visou informar, formar, denunciar, de acesso livre a todos quantos quiseram opinar e replicar. Durante a sua publicação teve a concorrência salutar do “Jornal do Ocidente” durante mais de 6 anos e mais tarde de “O Monchique” que se publicou durante 18 anos e durou até 28.12.2015.

Infelizmente os florentinos, de nascimento ou residência, aqui ou na diáspora, deixaram de ter informação local e registo para a história dos eventos da Ilha; nem denúncia pública dos erros e irregularidades.

As investigações da comunicação social foram e são imprescindíveis para a descoberta da verdade e essenciais para a democracia, a ponto de as oposições partidárias delas se servirem como bengala.

Quanto às Flores, os poderes instituídos, não por quatro dias, mas permanentemente gozam de dupla felicidade: não leem; e tem a certeza de que ninguém lê o que eles não quereriam.