Pelo Pe António Cassiano*

No episcopado de D. António de Sousa Braga, ora a terminar, foi por demais evidente a verificação do princípio, quase de ordem natural, de que confundem-se o homem e a sua função. Se, em pleno século XXI, ainda há bispos que aparentam ser os “príncipes da Igreja” de tempos antigos, D. António foi (é) precisamente o inverso. Mesmo que quisesse sê-lo, faltar-lhe-ia a figura e o jeito.

Lembro-me de como a sua maneira de ser e de relacionar-se, mais própria de pároco que de bispo – disse-o alguém, recentemente – caiu bem na Diocese quando substituiu D. Aurélio. Desde o início, exerceu o ministério episcopal não com brilho ou qualquer espécie de ostentação mas de forma simples e acessível, a que os padres e os católicos açorianos, de há 20 anos, não estavam habituados. E manteve-se fiel a esse registo, até hoje.

Em relação ao “governo” pastoral da Diocese, julgo ter havido três fases.

A primeira, de avanço, iniciada com a assembleia, de 1997, do Conselho Presbiteral que, fazendo valer a linha e as orientações do Concílio Vaticano II, “aconselhou” o Bispo a optar por uma Igreja diocesana organizada e construída a partir das bases, ou seja, das comunidades cristãs. Na altura, foram tomadas duas medidas descentralizadoras, que viriam a dar bons resultados: a criação de Conselhos Pastorais – de paróquia, ouvidoria, ilha e diocese – e a transformação, não apenas semântica, dos Departamentos diocesanos em Serviços de apoio à pastoral.

A segunda fase, de algum retrocesso, começou a desenhar-se aquando do colapso económico da Diocese e consequente desinvestimento na pastoral a nível diocesano, situação agravada com a decisão incompreensível de extinguir o cargo de vigário episcopal para a Formação e, mais ainda, pela notória impreparação de muitos dos jovens padres que o Seminário de Angra “deu à luz” nos últimos anos.

Por último, uma terceira fase, ainda no início, derivada da eleição do Papa Francisco, e que tem a ver com a passagem, por ele desejada e proposta, de uma Igreja predominantemente sedentária para uma Igreja “em saída” para realizar a ação que lhe é própria no meio social, sobretudo junto e com as chamadas “periferias”. As orientações diocesanas, em última instância aprovadas por D. António, têm sido nesse sentido, deixando, pois, a Diocese no bom caminho.

Ponto forte, em todo o tempo do seu episcopado, foi a boa relação que soube manter com as diversas formas de religiosidade popular, uma boa “impressão” que, certamente, ficará gravada na memória do povo açoriano.

*Diretor do jornal A Crença (o título deste artigo é da responsabilidade do IA)