Por Carmo Rodeia

Estamos a terminar mais um ano e a começar outro. De 2016 resta-nos a memória de um ano estranho, que não nos pode deixar tranquilos em relação ao futuro mais próximo. A eleição do impreparado e intempestivo Donald Trump para a presidência da maior potência mundial; a vitória do Brexit em Inglaterra; a aliança tática dos russos ao governo do ditador sírio Bashar Al- Assad; a tomada de medidas drásticas, pelo governo turco, que ordenou mais de 50 mil detenções para calar a oposição são apenas alguns dos exemplos que nos deixam boquiabertos, e com medo do que vem a seguir. Nenhum destes exemplos parece estar resolvido e as consequências do seu prolongamento no tempo são para já difíceis de antever.

O Papa Francisco numa mensagem enviada esta semana aos participantes do 39.º encontro internacional da Comunidade Ecuménica de Taizé, que decorre até ao fim do ano na Letónia, desafia os mais novos a irem ao encontro da esperança, e a “trilharem o caminho do futuro com alegria”, desenvolvendo “talentos e capacidades para o bem de todos”.

É tempo de “mostrar com palavras e atos que o mal não tem a última palavra na História”, sublinha a missiva de Francisco.

O Papa recorda as “muitas pessoas” que hoje vivem “confusas, desanimadas pela violência, pelas injustiças, pelo sofrimento e por divisões”, desafiando os jovens de Taizé mas também o mundo a crescer na confiança em Jesus, que acredita em cada um”, esperando, se assim se pode dizer, “o melhor de cada um”.

A profecia não poderia ser mais atual na história de hoje: esta esperança a que somos convocados obriga-nos à desinstalação. Tanto mais que há outros exemplos que nos abrem uma nova janela: a eleição do português António Guterres para Secretário Geral da ONU; o cumprimento e a visita do presidente os EUA e do primeiro ministro japonês a Hiroshima; os avanços no restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, mediados pela discreta mas eficaz diplomacia da Santa Sé ou os acordos de paz entre as FARC e o governo colombiano, mostram-nos que atravessar as diferentes etapas de crise não tem que ser necessariamente mau. Os bons e os maus exemplos impelem-nos a uma condição mais ativa e assumida. E é a partir desta dupla atitude que devemos olhar a vida porque  a mensagem do Evangelho é anti fatalismos, e diz-nos que não temos que nos resignar com o mundo em que vivemos. E que mundo é este que queremos fazer? Terei alguma dificuldade em caracterizá-lo de uma forma categórica mas posso sempre achar, (e acho!) que este mundo está mal construído e podia ser de outra maneira.

E embora a história bíblica nos leve a afirmar que todos os paraísos são paraísos perdidos- logo no livro do Génesis, o primeiro casal humano acaba lançado para fora do paraíso, depois de uma breve e atrapalhada permanência. E as portas do paraíso ficam interditas aos humanos-, a verdade é que esta expulsão é um  convite ao regresso. Reconhecer que o mundo e a história não são propriamente lugares paradisíacos não nos deve fazer cair os braços, nem desesperar.

Quero acreditar, porque preciso, que a estupidez humana está mais controlada E, que apesar de haver uns quantos insanos à solta, o mal não tenha que ditar o fim da história… se todos nós fizermos a nossa parte.

Um Feliz ano de 2017.