Pelo padre Nuno Pacheco Sousa

Maio tem uma força própria. Com facilidade vemos os dias a crescer, uma explosão da natureza a despontar em todos os cantos. O mês de maio tem uma força especial na Igreja nos Açores. Desde as festas e celebrações que se iniciam por algumas paróquias, até ao início do tempo de celebração dos Impérios em louvor ao Divino Espírito Santo, à celebração amiúde da Aparição de Nossa Senhora em Fátima ou aos festejos do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada.

As pessoas juntam-se e celebram, festejam, depois de um inverno ainda extenso. Seja talvez também por isso que estas devoções aparecem quase como tábua de salvação e dinamizadoras de um espírito crente e com tradições bem arreigadas. Apanhamos o ritmo da restante natureza e voltamo-nos para o mistério divino, numa catarse coletiva e tão pessoal, mas também num convívio que faria delirar os mais entusiastas de uma visão comunitária com laivos conciliares. O povo que habita os Açores sabe como ninguém juntar o penitencial ao festivo, dando-lhes a sonoridade, o festejo e um visual bem garrido.

A semana que se passou é uma das semanas centrais para São Miguel na roda anual da vida. Foi a semana das festas do Senhor, uma prova para os crentes e uma grande provocação para os que se opõem disfarçadamente a tudo o que é clerical, eclesial, teísta e Tradicional. Foi uma provocação para quem pensa que a festa é mais de ritual e tradições cristalizadas, do que de uma fé que respira com a força que não se deixa ficar apenas na liturgia instituída, ou que desrespeita as normas sanitárias para poder festejar. Um adro repleto de flores e velas acesas dia e noite, qual santuário oriental ou homenagem a uma grande figura desaparecida só pode ser uma grande e silenciosa revolução provocatória. Na devoção ao Senhor Santo Cristo o que vale é exatamente aquilo que se esconde no mais íntimo silêncio, é aquilo que o olhar compassivo e a postura paciente com que o busto miraculoso se apresenta perante o nosso olhar nos pode dizer. O que vale é aquilo que em nós se espelha daquela imagem, por comparação, na semelhança, na humanização que uma própria imagem nos pode dar. Nos seus olhos gastos pela humilhação, pela dor, pela idade, pela prece, todos nós encontramos lugar, desde a criança, ao doente numa cama de hospital que os tem tão semelhantes ao Dele.

Tem razão Tolentino Mendonça ao dizer que em Fátima, como aqui, o caminho e a experiência do crente e peregrino, começa muito antes e termina muito depois do encontro no local central desta devoção. Tem razão o Padre Paulo Borges ao dizer que o Senhor Santo Cristo pode despertar em nós a sede e o desejo capazes de nos fazer escavar fundo neste poço que não tem fim e que só nos pode saciar. Tem razão o Monsenhor Saldanha, quando escreve e compara o que damos ao Senhor áquilo que realmente necessitamos ao mesmo tempo que é dívida de gratidão.

Estas festividades deveriam dizer à Igreja micaelense e aos seus responsáveis mais da fé dos seus fiéis que das possibilidades que ainda temos quando passarmos este tempo pandémico.

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença