Francisco recordou aos bispos a obrigação de permanecerem na sua diocese

O Papa disse hoje no Vaticano que os padres devem estar perto das pessoas e que os bispos são obrigados a residir na sua diocese, sob pena de se terem de demitir.

Falando aos participantes num congresso promovido pela Congregação para o Clero (Santa Sé), Francisco observou que a missão dos sacerdotes não é ser “profissional da pastoral ou da evangelização”, alguém que “chega, faz o que tem a fazer – talvez bem, mas como se fosse uma profissão – e depois vai-se embora para viver uma vida separada”.

“Tornamo-nos padres para estar no meio das pessoas”, prosseguiu, pelo que o principal critério é “a proximidade”.

Neste contexto, o Papa lamentou que alguns bispos pareçam “afastar-se dos padres” devido a conferências ou viagens.

“Ouve, o decreto de residência de Trento (concílio do século XVI) ainda está em vigor. Se não tens vontade de permanecer na diocese, pede a demissão e vai pelo mundo fazer um outro apostolado, muito bom. Mas se tu és bispo dessa diocese, residência. Estas duas coisas: proximidade, residência”, apelou.

Francisco dedicou parte do seu discurso à formação dos novos sacerdotes e observou que estes não nascem como “cogumelos” ou “em laboratório”, mas num contexto humano, familiar, onde aprendem valores, a fé, e absorvem a “espiritualidade do povo”.

O Papa alertou também contra a excessiva rigidez do caráter e do comportamento, que às vezes esconde doenças psíquicas.

“Quando me apercebo de que um jovem é demasiado rígido, fundamentalista, não tenho confiança”, comentou.

Os responsáveis eclesiais foram por isso desafiados a manter os “olhos abertos” na formação dos seminaristas, para formar padres que sejam “firmes mas não duros, alegres mas não superficiais, pastores, não funcionários”.

“Um padre que seja um homem pacificado, em paz, saberá espalhar serenidade à sua volta, mesmo nos momentos cansativos, transmitindo a beleza da relação com o Senhor. Não é normal, pelo contrário, que um padre esteja muitas vezes triste, nervoso ou seja duro de caráter”, prosseguiu.

Num registo mais informal, o Papa pediu que os fiéis não “paguem pelas neuroses dos padres”.

Esta sexta feira, o Papa recebeu no Vaticano os bispos alemães, em visita ‘ad Limina’, e disse que a chegada de refugiados abriu um “período excecional” na vida da Europa.

 

“Atualmente, estamos a viver um período excecional. Centenas de milhares de refugiados vieram para a Europa ou colocaram-se a caminho em busca de refúgio da guerra e da perseguição”, referiu, num discurso entregue aos membros da Conferência Episcopal da Alemanha.

Francisco agradeceu o “grande apoio” que a Igreja na Alemanha, através das suas organizações caritativas, tem vindo a oferecer “em todo o mundo”, e pediu que continuem a ser oferecidas “assistência e proximidade humana” aos refugiados.

“No espírito de Cristo, queremos continuar a enfrentar o desafio do grande número de necessitados e, ao mesmo tempo, apoiamos as iniciativas humanitárias para fazer com que as condições de vida dos países de origem se tornem mais suportáveis”, acrescentou.

O discurso aludiu depois à celebração do Jubileu da Misericórdia, durante o qual a Igreja vai ser desafiada a promover a redescoberta da Confissão e da Eucaristia junto dos seus fiéis.

Francisco pediu que a Conferência Episcopal da Alemanha nunca se canse de ser “a advogada da vida”, protegendo-a “incondicionalmente desde o momento da conceção até à morte natural”.

“Como são grandes as feridas que a nossa sociedade tem de sofrer pelo descarte dos mais fracos e os mais indefesos”, lamentou.

Quanto à vida interna da Igreja na Alemanha, o Papa identificou uma “erosão” da fé católica no país, com queda na participação nas missas dominicais, nos sacramentos e nas vocações, pelo que apresentou como “imperativo” a conversão pastoral.

“A Igreja não é um sistema fechado, que gira sempre em volta das mesmas perguntas. A Igreja é viva, sabe inquietar e animar”, indicou.

CR/Ecclesia