O Papa apelou hoje no Vaticano a negociações para um cessar-fogo na Ucrânia, denunciando uma “escalada cada vez mais perigosa para todos” nesta guerra.

“Enquanto a fúria da destruição e da morte perversa e as confrontações se inflamam, alimentando uma escalada cada vez mais perigosa para todos, renovo o apelo aos responsáveis das nações: não levem a humanidade à ruína, por favor. não levem a humanidade à Ruína”, declarou, desde a janela do apartamento pontifício, após a recitação do ‘Regina Coeli’.

A intervenção foi saudada com uma salva de palmas pela multidão presente na Praça de São Pedro.

“Que se implementem verdadeiras negociações, iniciativas concretas para um cessar-fogo e para uma solução sustentável. Que se ouça o grito desesperado das pessoas que sofrem, vemo-lo nos media, todos os dias; que se respeite a vida humana, que acabe a macabra destruição de vidas, cidades e aldeias, por todo o lado”, pediu Francisco.

O Papa os presentes a rezar e a empenhar-se pela paz, “sem cessar”.

Este sábado, num encontro com crianças refugiadas, Francisco assumiu a vontade de visitar a Ucrânia, mas apenas no “momento certo”.

Também na última noite, numa mensagem transmitida online, o Papa questionou a guerra “entre irmãos, entre cristãos” no leste da Europa.

Na solenidade de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, a intervenção dominical destacou o momento em que o “sonho de Deus para a humanidade se torna realidade” e “povos que falam línguas diferentes se encontram e se entendem”.

“Mas hoje, 100 dias depois do início da agressão armada contra a Ucrânia, a humanidade caiu novamente no pesadelo da guerra, que é a negação do sonho de Deus”, lamentou o pontífice.

O Papa realçou que, neste momento, há “povos que se confrontam, povos que se matam, pessoas que, em vez de se aproximarem, são afastadas das próprias casas

Francisco saudou, por outro lado, o anúncio da renovação da trégua no Iémen, por dois meses, desejando que se abra caminho para o fim para este “sangrento conflito”, que “gerou uma das piores crises humanas da atualidade”.

A reflexão aludiu ao cenário de fome, destruição, falta de educação, “falta de tudo”, com um apelo: “Pensemos nas crianças”.

O Papa deixou uma palavra de estímulo aos pescadores, afetados pelo aumento do preço do combustível, que se arriscam a “fazer cessar a sua atividade” e a todos os trabalhadores “gravemente penalizados pelas consequências do conflito na Ucrânia”.

A intervenção evocou ainda as vítimas das cheias na região metropolitana do Recife, no Brasil.

Entretanto, na Missa a que presidiu, na Basílica de São Pedo, o Papa apelou a uma Igreja aberta e acolhedora, sem “vitimização” diante das dificuldades, falando durante a Missa de Pentecostes, que encerra o tempo pascal no calendário católico.

“O Espírito Santo ensina à Igreja a necessidade vital de sair, a necessidade fisiológica de anunciar, de não ficar fechada em si mesma, de não ser um rebanho que reforça o recinto, mas uma pastagem aberta, para que todos possam alimentar-se da beleza de Deus”, referiu, na homilia da celebração.

Francisco pediu que a Igreja seja uma “casa acolhedora, sem divisórias”, alertando para o “maligno”, que “alimenta a impaciência, a vitimização, faz sentir a necessidade de lamentar-se” e leva a “reagir aos problemas criticando, colocando toda a culpa nos outros”.

“O espírito mundano faz pressão para que nos concentremos apenas sobre os nossos problemas e interesses, na necessidade de parecermos relevantes, na defesa extrema das nossas pertenças nacionais e de grupo”, acrescentou.

A presidência da Eucaristia foi confiada ao cardeal Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, como tem acontecido em várias ocasiões, desde que Francisco começou a ser afetado por problemas num joelho, deslocando-se numa cadeira de rodas.

O Papa pediu que as comunidades católicas se concentrem no “aqui e agora”, que apresentou como “lugares da graça”, antes de questionar quem vive apegado “ao passado, aos queixumes, às nostalgias, àquilo que a vida não nos deu”, ou alimenta “temores, medos, ilusões, falsas esperanças”.

O Espírito Santo leva-nos a amar, aqui e agora: não um mundo ideal, uma Igreja ideal, uma congregação religiosa ideal, mas aquilo que existe, à luz do sol, na transparência, na simplicidade. Quanta diferença do maligno, que fomenta as coisas ditas pelas costas”.

No dia em que entra em vigor a reforma da Cúria Romana, Francisco sublinhou que “os projetos de modernização não bastam”.

“O Espírito liberta-nos da obsessão da urgência e convida-nos a percorrer caminhos antigos e sempre novos: os caminhos do testemunho, da pobreza, da missão, para libertar-nos de nós mesmos e enviar-nos ao mundo”, apontou.

A celebração o Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, evoca a efusão do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade na doutrina católica.

O Papa recordou, na sua homilia, a importância de se perdoar a si próprio, “reconciliar-se com o passado” e recomeçar, com a ajuda do discernimento espiritual.

“O Espírito Santo nunca te dirá que está tudo bem no teu caminho. Nunca to dirá, porque não é verdade”, realçou.

Francisco advertiu para a ideia de “usar a liberdade como apetece”, que leva ao “vazio interior”.

Na última noite, o Papa enviou uma mensagem à vigília ecuménica de Pentecostes, em formato online, organizada pelo Serviço Internacional para Renovação Carismática Católica (Charis) e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

(Com Ecclesia)