Pelo Pe. Hélder Miranda Alexandre

Cinquenta dias depois da Páscoa, reunimo-nos para celebrar o seu culminar. É a maior festa dos Açores! Nenhuma freguesia, localidade ou comunidade cristã fica de fora. De Santa Maria ao Corvo a festa do Espírito Santo enche-nos de sabores, cheiros, músicas e tradições sem par! É a maior das festas açorianas!

As leituras de hoje, sobejamente conhecidas e constantemente relidas em tantas ocasiões, apontam-nos para a frescura do nascimento da Igreja. A festa do Pentecostes era para os judeus a festa da lei. Pentecostes é uma palavra grega que significa “quinquagésimo”, porque acontecia 50 dias depois da Páscoa.

Por um lado, a festa do Pentecostes servia para agradecer a Deus pela comida que Ele providenciava. Acontecia no fim da primeira colheita do ano e os judeus se juntavam para oferecer uma porção da colheita a Deus. Por outro lado, o Pentecostes também se tornou uma celebração da Lei de Deus. Algumas semanas depois da primeira Páscoa, quando os israelitas saíram do Egito, chegaram ao monte Sinai, onde Deus deu a Moisés os Dez Mandamentos e a Torá.

Nesse dia, os discípulos estão fechados, com medo dos judeus, mas à semelhança do Sinai, acontece um rumor semelhante a forte rajada e as línguas de fogo descem sobre eles. Fogo e vento forte, como aconteceu no Sinai! Mas há uma diferença essencial. Já não se trata da Torah, mas da nova lei, a lei do amor do Espírito Santo. Porventura muito mais exigente, positiva e dinâmica  que a antiga.

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem”. Oriundos de várias nações passaram a entender tudo o que os apóstolos lhes ensinavam. Estamos perante o antítipo do que aconteceu em Babel, episódio no qual os homens se desentenderam, por causa do seu orgulho em querer chegar ao céu, na construção da famosa torre. Pelo contrário, no livro dos Atos encontramos como a ação do Espírito Santo rompe barreiras de línguas e culturas. É o Espírito que transforma os corações que se passam a entender. Porque existe agora uma única língua, a do amor do Espírito de Deus que constrói pontes e até renova a face da terra, conforme cantamos no salmo. Pelo mesmo Espírito a Igreja se enriquece de carismas e dons, mas é sempre o mesmo corpo e o mesmo espírito, à semelhança das gotas de água que fazem crescer diferentes espécies de plantas e flores.

No Evangelho de João, no dia de Páscoa, o Senhor Ressuscitado envia o Espirito depois de enviar a paz aos seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”. A Igreja sempre viu nesta passagem o fundamento do Sacramento da Reconciliação. Na verdade, só pode haver Espírito Santo onde se constrói o perdão, que é dom do mesmo Espírito. Uma unidade verdadeira, construída na paz e no perdão, só acontece como dom do Espírito Santo. Onde não houver isso não existe Espírito Santo e autêntica comunidade, não existe Igreja!

Hoje nasce a Igreja, maior dom do Espírito Santo! E sem ele não existe comunidade cristã. Se a Igreja tem mais de 2000 anos de história deve-o somente ao Espírito de Deus!

Será que as festas que vivemos são centro de comunhão autêntica? Têm sido preparadas e vividas na paz e no perdão?

Nunca nos esqueçamos de algo central. Só posso fazer parte da Igreja, se for construtor de comunhão, de paz e de perdão. Só assim o Espírito se faz carne! Na verdade, é Ele o verdadeiro companheiro de viagem desta aventura cristã, cujo início e vivência tão festivamente celebramos!

Act 2, 1-11/ Sl 103 (104)/ 1 Cor 12, 3b-7.12-13/ Jo 20, 19-23