Por Tomaz Dentinho

O voto nas eleições é um momento único de liberdade e compromisso mas é também um tempo de humildade e de confiança. É secreto porque é humilde e não medroso. É consciente porque responsabiliza e não subjuga. Como dizia o Cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco, na homilia do funeral do Presidente Nestor Kichner que muitas vezes confrontou: “Este homem fez cair sobre seu coração, em seus ombros e na sua consciência a unção de um povo. Um povo que lhe pediram para liderar. Seria uma grande ingratidão se as pessoas, concordando ou não com ele, esquecessem que este homem foi ungido pela vontade popular”.

E assim acontece com todos os políticos que elegemos: fazemos cair sobre o seu coração, os seus ombros e a sua consciência a vontade de um povo e, também por isso, não devemos ser ingratos para quem foi eleito, independentemente de pertencermos à maioria que o elegeu e apesar dos erros e injustiças que sempre cometerão. É esse também o caminho da liberdade de voto, para além do exercício efectivo do mesmo, o testemunho consciente e sem medo de cada dia.

É difícil assumir o voto e o testemunho. Para o voto é preciso humildade para delegar por um mandado de quatro anos uma grande parte das nossas preferências sobre a quantidade e qualidade de bens e serviços públicos e sobre a regulação da afectação dos bens e serviços privados e comuns; e é necessário confiança para transferir para os políticos o dia-a-dia dessas decisões que nos afectam a todos. Para o testemunho é fundamental o discernimento e a coragem. Coragem para enfrentar os cinco minutos difíceis para dizer Não, como dizia o meu pai. Discernimento como me transmitiu Aura Miguel, de um curto diálogo de avião com o Papa João Paulo II.

Os tempos estão muito melhores para que façamos a escolha com humildade e confiança. Por um lado porque finalmente se ultrapassou em Portugal a ilusão orçamental em que os políticos prometiam e gastavam mundos e fundos sem se preocuparem com as dívidas e as desvalorizações que as suas promessas, e as escolhas do povo, implicavam para o futuro.

Por outro lado, porque todas as necessidades são urgentes e interrelacionadas o que exige escolhas bem analisadas e debatidas que aumentem e não condicionem o espaço presente e futuro da liberdade, como defendia o prémio Nobel da economia Amartya Sen. A competitividade das cadeias de valor tem que ser consistente com o desenvolvimento sustentável das pessoas e dos sítios; com a eficiência dos processos de produção e consumo, públicos e privados; e com a redução das desigualdades internas, geracionais e globais. Não é pêra doce mas também foi sempre assim, salvo em tempos ilusórios de pré catástrofe.

Algumas coisas já sabemos. Primeiro que o Estado não tem resposta para todas estas dinâmicas e grande parte deste esforço cabe às famílias e às empresas; aos empregados e aos funcionários, à Igreja e às instituições de solidariedade social, aos municípios e às regiões e, sobretudo, a cada um de nós. Depois sabemos também que o importante é melhorar e a esperança que vamos tendo no Reino de Deus dá bons sinais na Terra todos os dias; basta olhar com olhos de ver. Ver também à frente para escolher melhor.