Pelo padre José Júlio Rocha

A planície do Pó, a norte de Itália, é um dos lugares mais ricos do mundo. É lá que ficam as regiões mais industrializadas da Itália, com Milão, Turim, Bolonha, Parma, Veneza e outras. Com mais da metade da área de Portugal, a “Pianura Padana”, como é conhecida pelos italianos, é também o vale mais fértil do país e um dos mais prósperos da Europa.

A planície também é conhecida pelos seus invernos frios e húmidos, onde a neblina, pelas manhãs, empalidece as paisagens, dando-lhes a fria beleza das coisas vagas: os ciprestes, magros e altivos, que se erguem por todo o lado; as torres das igrejas, altas e soberbas, que desaparecem na neblina, como se a sua altura não tivesse fim.

A pequena cidade de Comacchio habita o confim da planície do Pó, no delta do rio do mesmo nome, uns 100 quilómetros a sul da inquestionável Veneza. É uma cidadezinha piscatória, banhada pelo lago com mesmo nome da cidade, não propriamente um lago, mas uma entrada de água, à guisa da “Laguna” de Veneza, com duas saídas para o mar, lago salgado, portanto, capital mundial do cultivo e pesca da enguia.

Foi aí que eu passei o Natal de 1992, ainda criança e já padre, com 24 anos, para ajudar o pároco da cidade a confessar pessoas e a organizar a belíssima liturgia de Natal que os italianos tanto adoram. Ali a enguia cozinha-se de mil e uma maneiras, como o português bacalhau. E eu adorava certas confeções da enguia, magistralmente preparadas por quem era mestre na matéria, e, em matéria de comida, os italianos têm por hábito dar calças em todo o mundo.

Don Carlo era o pároco da cidade, pequenina de 20 mil habitantes. Alto e corpanzudo, sobretudo azul-escuro até aos joelhos, boné cinzento na cabeça, e um sorriso do tamanho XL para toda a gente que se lhe aparecesse diante. Don Carlo era um bom gigante. Saudava toda a gente e toda a gente o saudava, conhecido como era naquela cidade de canais e pontes.

Lembro-me do dia da festa de Natal das crianças, 24 de Dezembro, mais de quinhentos miúdos e jovens que invadiram a igreja, para se confessarem e fazerem celebrações e atuações naquele dia. Don Carlo era permanentemente atacado por hordas de crianças que o queriam abraçar, cumprimentar, receber uma guloseima, daquelas que lhe enchiam os bolsos. E os pais sorriam.

O que mais me impressionou foi a casa de Don Carlo, o passal, grande e um pouco vazio, desprovido de ornamentos inúteis, pobre e despojado como o próprio inquilino. Foi lá que pernoitei cinco noites.

A porta principal estava sempre aberta. Ou quase. Só fechava quendo Don Carlo se ia deitar. Essa porta dava imediatamente para uma sala com alguns móveis, onde presidia uma mesa grande, sempre cheia de comida, muita dela à base da sobredita enguia. As pessoas traziam pratos de comida que deixavam em cima da mesa daquela sala estranha, e eram muitos os pobres que, pelo almoço ou pelo jantar, ou a qualquer hora do dia, encontravam ali o repasto que lhes matasse a fome. Era uma verdadeira “casa do povo”, casa de toda a gente: uns entravam para deixar lá o prato que havia de matar a fome a alguém. Outros entravam para matar a fome do prato que alguém deixara lá.

E Don Carlo era feliz. “Nunca fui assaltado”, costumava dizer, com certo orgulho na voz. “Quem não tem nada a perder não perde nada”. Tinha um sentido de justiça social profundamente cristão e chegou-me a dizer, meio a sério, meio a brincar: “Vens de Roma. Roma tem padres a mais. Passam os dias a estudar, a celebrar missinhas e a percorrer os corredores do Vaticano. Não sabem o que é a Igreja. A Igreja é isto: o povo que vive, que celebra e que se ajuda”.

Pela noite, Don Carlo vivia aquela solidão do guerreiro que repousa. A sua companhia era um cão bonito e trapalhão, um boxer castanho de olhos claros e alegres, que apanhava pedaços de pão em voo, e olhava, curioso e de cabeça à banda, quando alguma coisa estranha lhe chamava a atenção. Como muitos padres, Don Carlo vivia aquela solidão de quem, durante o dia, dá tudo e, à noite, tem apenas o silêncio como recompensa. Mas, já sexagenário, dava à solidão o valor que ela tinha: rezava-a e, no outro dia, às sete da manhã, abria a porta para sempre, e começavam a entrar os pratos e os pobres.

Depois de eu ter partido, ainda trocámos alguns postais. Veio depois o silêncio. Don Carlo certamente já partiu para o território de Deus. Recordo com doçura o seu olhar, o seu abraço e, sobretudo, a sua forma de ser sacerdote: uma porta sempre aberta.

 

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira no Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio