É tempo de reconhecer na face do migrante o rosto de Cristo

Por Ana Silva

Foto: Ana Silva

Em 2025, os trabalhadores migrantes contribuíram para o Estado português com 4,1 mil milhões de euros, mais 465 milhões do que em 2024.

Os dados são inequívocos e demonstram que o contributo das pessoas migrantes é decisivo para a sustentabilidade da segurança social portuguesa.

Mas se contribuem e asseguram o sistema social em Portugal, porque razão os odiamos tanto?! Será pelos que beneficiam de apoios do Estado?! Se olharmos para o lado daqueles que beneficiaram de apoios do Estado em 2025, o valor das prestações sociais pagas ficou-se pelos 811 milhões de euros. O que, ainda assim, revela um saldo positivo de 3,1 mil milhões de euros, mais 11% do que no ano anterior. É fundamental desmistificar a narrativa que por vezes, ou melhor dizendo, muitas vezes se instala no debate público.

A migração para Portugal não é uma migração de apoios sociais. É sim, uma migração marcada pela necessidade premente de mão de obra e crescimento económico. A estatística prova-o. O período de 2010 a 2014 é bem revelador do impacto que a crise económica teve nas migrações. Os fluxos migratórios tendem a aumentar em tempos de estabilidade económica e a diminuir em períodos de crise. Se em 2010 a população estrangeira em Portugal rondava os 450 mil residentes, em 2025 o número aumentou para cerca de um milhão e meio. O aumento é real, as contribuições também.

Assistimos a um desenvolvimento crescente da restauração aos serviços, passando pela construção e reabilitação de espaços públicos e privados. No entanto, apesar das fortes evidências, continuamos a reduzir as migrações a critérios mercantilistas, a terminologias erradas (nenhum ser humano é ilegal) e a muito pouca humanidade.

Esta visão estreita e leiga ignora a fragilidade inerente ao processo migratório. É nosso dever, como sociedade marcada por décadas de emigração, rejeitar o uso da vida das pessoas em troca de votos e populismos.

A história dos Açores é, por excelência, uma história de mobilidade humana. Fomos e continuamos a ser um povo de emigrantes, com laços profundos que se estendem por todo o mundo. Hoje somos muito mais do que um porto de partida. Somos casa para pouco mais de 8000 estrangeiros que encontraram nos Açores uma oportunidade digna de vida.

Esta nova dinâmica migratória que enriquece o nosso arquipélago com diversidade, criatividade e dinamismo, exige de nós, de todos nós, e sobretudo da comunidade cristã, uma reflexão profunda sobre o nosso papel no acolhimento e integração.

“Passar das palavras às ações”. São palavras do papa Leão XIV, que acrescenta dizendo que a “indiferença e a discriminação são atitudes anticristãs”.

O nosso dever é o de abrir os nossos braços e corações, acolhendo os migrantes como irmãs e irmãos. Acolher o migrante é acolher o próprio Cristo.

Nos Açores, a resposta da Igreja tem procurado ser concreta. A comissão diocesana da Pastoral da Mobilidade Humana para as Migrações tem trabalhado para ir ao encontro das necessidades reais, tendo a 18 de dezembro de 2024, juntamente com o Centro Paroquial do Bem Estar Social de São José e a Cáritas Diocesana dos Açores, lançado o serviço gratuito de psicologia. Seguir-se-á o serviço de aconselhamento jurídico gratuito e apoio espiritual. Mas a missão de acolher não se restringe apenas às estruturas diocesanas, ela é um imperativo para todos aqueles que aceitam as doutrinas do cristianismo. Qualquer cristão tem a missão de acolher, de integrar, de ouvir e de aceitar.

Somos um povo de migrantes, a nossa história confere-nos uma sensibilidade única que não podemos ignorar.

É tempo de reconhecer na face do migrante o rosto de Cristo e de construirmos juntos, lado a lado, uma sociedade verdadeiramente acolhedora, onde o respeito impere e a dignidade humana prevaleça.

*Ana Silva Socióloga é Diretora da Comissão Diocesana da 27Pastoral da Mobilidade Humana para as Migrações

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