
A coordenadora do Grupo Vita, Rute Agulhas, afirmou hoje a disponibilidade para “continuar a trabalhar” na Igreja católica o tema da proteção de menores em “articulação com as Comissões Diocesanas e com a equipa de Coordenação Nacional”.“A continuidade ou não, e em que moldes o Grupo Vita (continua) vai naturalmente depender da decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, a ser tomada na Assembleia Plenária. Caso continuemos com novos objetivos ou com uma remodelação em termos da concretização desses mesmos objetivos, porque, de facto, a realidade hoje na Igreja em Portugal é muito diferente ou é relativamente diferente da realidade que encontramos há três anos atrás”, afirmou a responsável aos jornalistas.
As Comissões Diocesanas de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis reúnem-se hoje para um dia de formação em torno do tema «Comissão Diocesana: No prevenir e no cuidar», que teve início às 9h30, com a palavra de abertura de D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, e de José Souto Moura, juiz Conselheiro jubilado e vogal da equipa de coordenação nacional.
Rute Agulhas defende ser possível “melhorar a articulação” entre o trabalho dão Grupo Vita e o trabalho das Comissões Diocesanas, ultrapassando “dificuldades sentidas”.
“O objetivo é tentarmos trabalhar em conjunto, criar sinergias e tentar encontrar pontos de encontro, porque, estamos todos a trabalhar para a mesma missão, para o mesmo objetivo. Acreditamos que, de facto, só com o trabalho em rede e em equipa é que é possível chegar a bom porto”, acrescentou.
A responsável nota “mudanças” e um “crescimento positivo por parte da Igreja” nesta matéria mas indica que a mudança tem de ser “estrutural” e que seria “utópico” após três anos da publicação do relatório da Comissão Independente “tudo estaria alcançado”.
“Estamos a falar de mudanças não apenas no sentido de criar respostas para esta problemática, mas estamos também a falar da necessidade de haver mudanças estruturais ao nível das crenças, ao nível da própria organização das estruturas, da forma como a Igreja interage entre si, para dentro, mas também para fora. Portanto, são mudanças que demoram algum tempo”, adverte.
“Não na Igreja e não noutros setores da sociedade, onde se trabalha na área da violência sexual há muitos mais anos, há décadas, e onde ainda temos também um caminho muito grande pela frente. Portanto, não seria necessariamente na Igreja que isso poderia acontecer de forma tão rápida”, acrescenta.
Rute Agulhas admite que a realidade do abuso sexual de menores “não acaba aqui”, “nem na família, na escola, nas atividades extracurriculares, no mundo online”.
“É preciso investir não só na intervenção e na reparação, mas sobretudo na prevenção, e também se falou aqui bem da importância da prevenção. A prevenção não tem resultados visíveis a curto prazo, tem resultados a médio e longo prazo, mas naturalmente esta não é uma problemática que vai deixar de existir, porque está inerente a muitos seres humanos, a muitas pessoas, tal como outras perturbações que naturalmente também existem”, explicou.
Como “mundo de pessoas” que a Igreja é, “um mundo de estruturas que anda muitas vezes ainda a ritmos um pouco diferentes”, é necessário “criar sinergia conjunta, planos de ação conjuntos, para que todos juntos possam atingir um objetivo que não se atinge a curto prazo”.
Carla Rodrigues, coordenadora da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis na Igreja Católica, apontou aos jornalistas que as denúncias “estão a diminuir”.
“Há sinais muito positivos, as denúncias têm diminuído, o que é um sinal a realçar e a fortalecer. Contudo, não podemos esquecer que isto tem muito a ver com a formação e a informação. E é preciso, uma sociedade saudável tem que apostar na formação e na informação”, indicou.
A responsável fala num trabalho de “confiança”, que “não se impõe, cria-se, cultiva-se, precisa de tempo, dedicação e competência”.
“A partir do momento em que se quebra o silêncio, e quem diz quebrar o silêncio na Igreja diz quebrar o silêncio na sociedade civil, a vítima sente que é escutada, sente que o seu relato vai ser ouvido com atenção. E tudo isto faz com que, em termos gerais, as situações de abuso diminuem. Mas, reportando-me especificamente ao contexto da Igreja Católica, sim, sem dúvida que há uma diminuição drástica das situações de abuso sexual”, indica.
(Com Ecclesia)