Pelo padre Marco Sérgio Tavares

Uma notícia sobre o chefe de Estado ter ajudado um ex-recluso a encontrar uma habitação fez-me recordar um episódio ocorrido aquando da vinda da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima à nossa Diocese e o início do seu múnus pastoral como Bispo coadjutor, do agora eleito Bispo de Viana, Dom João Lavrador.

A caravana já ia atrasada. Saídos da Ajuda da Bretanha, entramos na Ouvidoria pela ponta dos Mosteiros, paragens pelo caminho, ida ao ilhéu de São Roque e, antes da chegada para a procissão a partir do Santuário da Esperança, teve direito a entrada e celebração no estabelecimento prisional de Ponta Delgada. Na altura estava responsável por essa organização e ao conduzir Dom João disse-lhe que estávamos atrasados, ao qual ele me respondeu mais ou menos assim: “não faz mal Padre Marco… leve o tempo que for necessário na cadeia”.

Alguns reclusos vieram ao exterior e levaram em procissão a imagem para o claustro da prisão. Retenho até hoje a imagem do túnel de entrada, o reconhecimento de um recluso que foi meu antigo aluno e paroquiano, que ao ver-me baixou os olhos, o grupo que quis participar na celebração e o barulho dos que ficaram nas celas a vociferar pela demora da hora do jantar.

Esquecemo-nos muitas vezes que o primeiro santo a entrar com Jesus no Céu foi um ladrão. Por mim, a visita da imagem poderia ter-se iniciado e ficado pela prisão. Nenhuma outra celebração, troca de olhares e até homilias teve mais sentido do que aquela. Já ninguém suporta um Cristianismo cronometrado. Há cadeias ao ar livre às quais estamos umbilicados.

A primeira delas é o preconceito. Vejam-se os noticiários e o julgamento nas redes da atitude do Presidente da República. Não de trata de escamotear os crimes pelo qual aquele cidadão já “pagou” perante a justiça dos homens. É bem mais a hipocrisia daquilo a que chamamos de reinserção social, dos maus fazedores de opinião, do ser humano e cristão em part-time. Prontos a julgar e lentos na cedência de oportunidades.

Esta imagem de cadeia, agora na partida de Dom João, faz vir ao de cima uma certa onda circulante de que Dom João não se sentia bem na Diocese açoriana. Não sabemos quais as reais dificuldades em encontrar um Bispo para os Açores, como também não sabemos das dificuldades em se ser Bispo nos Açores. O certo é um futuro incerto… Não adivinhamos durante quanto tempo a nossa Diocese estará órfã na sucessão apostólica dado que um administrador pouco ou nada altera a situação em que nos encontramos.

Por outro lado, somos uma Diocese dispersa, com ainda muito clero, estagnada pastoralmente, como todo o resto do planeta apanhado por esta pandemia, e numa espécie de “cadeia” onde o apego aos lugares ou a falta de oportunidades pastorais fazendo parecer que só alguns têm voz ou assento.

Habitamos um problema missionário: os de cá não querem sair e os de fora custam a adaptar-se. Somos periféricos ao grande centro da nomeação romana e estamos à mercê de uma nunciatura apostólica que ainda não nos conhece nas dificuldades e desafios do que é ser-se Igreja nas nove ilhas dos Açores. O salmo 124 reza assim:” 7*A nossa vida escapou como um pássaro do laço de caçadores; rompeu-se o laço e nós libertámo-nos. 8*O nosso auxílio está no nome do SENHOR, que fez o céu e a terra.” A única cadeia onde conheci Dom João foi aquela que referia atrás. Se se lê a sua partida como uma fuga para outra liberdade… não sei, ou se foi este apenas o tempo necessário. Só lhe podemos desejar o melhor e à Diocese irmã de Viana.

Rezemos para que este tempo de orfandade seja breve dado que não há pior cadeia que a prisão em nós mesmos.